12/08/2012

Nas Entrelinhas com Claudio Fortunato


Claudio Fortunato nasceu em Porto Alegre em 6 de Maio de 1970. Desde muito pequeno demonstrou um forte apreço pelas letras, e acabou por aprender a ler aos 4 anos de idade, com a família e as poucas lições do jardim de infância. Aos 5 iniciava a primeira série em uma escola particular, pois as estaduais e municipais não permitiam que crianças nesta idade fossem matriculadas. Aos 6 anos leu a "História da Civilização Ocidental" de Edward Burns, um livro um tanto quanto complexo para um leitor tão precoce. Mesmo assim repassava em suas conversas infantis detalhes sobre a vida de Napoleão e Luis XV. Na adolescência amigos consideravam a possibilidade de seu caminho para a loucura, haja visto as tardes ensolaradas de Domingo que ele perdia dentro de seu quarto, devorando livros e mais livros. Na juventude pensou em estudar letras e tornar-se professor de Língua Portuguêsa e Literatura, porém o único apoio que recebeu foi a singela frase: "Com o salário que os professores ganham neste país?". Pela necessidade acabou por aderir à carreira militar, saiu de casa aos 17 anos e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde continuou a residir até 1993. Neste ano pediu baixa e abandonou a carreira de Fuzileiro Naval para arriscar a vida em São Paulo. De lá para cá trabalhou nos mais variados ramos de atividade: moda, lavagem de carro à seco e terceiro setor, até finalmente se fixar na área do Turismo. Na adolescência mesmo ensaiou alguns contos e poemas, mas foi em uma viagem de trabalho à Selva Amazônica que teve a inspiração necessária para a trama central de seu romance de estréia. Atualmente o autor reside em Barueri, no estado de São Paulo. Em breve ocorrerá o lançamento de seu novo romance: Farol de Gelo, pelo Clube de Autores.



A Entrevista
Paraíso da Leitura: Olá, Claudio. Obrigada por ceder esta entrevista!

~Sobre a Obra
Paraíso da Leitura: Hileia é sua obra de estreia e teve como cenário o maior orgulho da nossa nação, a Floresta Amazônica. Vi que a ideia para este livro veio quando estava em uma viagem à trabalho neste local, mas como, exatamente, a estória surgiu em sua mente?
CLAUDIO FORTUNATO: Na verdade foi um “insight”. Quase uma visão mesmo. Não posso revelar qual parte do livro para evitar spoilers, rs, mas enquanto sobrevoava aquela imensidão de água e vegetação em um monomotor, vi as águas se turvarem de flamingo e explodirem para um momento ápice do enredo. Como desde a adolescência eu tinha a intensão de escrever um romance, naquele momento eu tinha certeza de que havia encontrado a trama ideal. Para tanto, era necessário que eu fizesse o caminho inverso, eu sabia como tudo ia terminar, mas não sabia como começava. Após dois meses de trabalho eu tinha em mãos um esboço do que seria a obra completa.
Paraíso da Leitura: Ao lermos sua obra, além de nos divertirmos, conhecemos mais sobre a cultura de nosso próprio país. Você trabalha muito com o folclore brasileiro, montando uma trama ao redor destes seres imaginários. Para tanto, você teve que criar uma base sólida de conhecimentos sobre os mesmos, como foi isso?
CLAUDIO FORTUNATO: O primeiro contato intenso com este vasto mundo do imaginário popular Amazônico foi durante a própria viagem, até em lojas de artesanato os moradores me revelavam pérolas da cultura local. Porém, após a montagem do esboço que mencionei anteriormente, houve quatro meses de exaustiva pesquisa sobre os temas escolhidos, bem como uma bagagem extra do meu próprio imaginário pessoal em cima de cada uma destas personagens. Lembro-me de um curupira que ilustrava um livro escolar de minha infância, eu o achava assustador, rs.
Paraíso da Leitura: As duas irmãs, Maria do Socorro e Maria Joaquina, têm personalidades bem distintas. Uma crê apenas no que vê, é turrona e corajosa, enquanto a outra se mostra mais frágil, crédula e romântica. Elas foram criadas dessa forma para complementarem uma à outra?
CLAUDIO FORTUNATO: Exatamente, além de outras razões. Mostrar a possibilidade de diversidade de personalidades em uma mesma família, mesmo havendo uma mesma fonte de educação e conhecimento, é uma delas. Evidenciar que pode existir amor e respeito, mesmo ocorrendo pequenas contendas, entre pessoas que pensam de modo diverso, é outra. Mas o mais interessante disso tudo é perceber que no decorrer da estória uma vai somando atributos à outra, e acabam por tornarem-se extremamente semelhantes no final.

~Sobre seus métodos
Paraíso da Leitura: Hileia é um livro consideravelmente extenso. Quanto tempo levou para escrevê-lo?
CLAUDIO FORTUNATO: Sim, é extenso, bem mais do que eu imaginava a princípio, rs. Após os períodos de organização do esboço e pesquisa, levei sete meses escrevendo ininterruptamente por, no mínimo, cinco horas por dia. Depois passei três anos relendo o que havia escrito enquanto buscava uma editora, num total de 11 revisões.
Paraíso da Leitura: Quem foi seu primogênito e como foi a experiência de dar vida a ele?
CLAUDIO FORTUNATO: Apesar de o livro ser narrado em primeira pessoa, e o próprio narrador ser o protagonista, o primogênito é Nikos, e tudo o que foi escrito foi por ele e para ele. Nenhuma linha existiria sem essa personagem. Dar vida a um ser que considero perfeito foi uma experiência absolutamente transcendental, pois o julgamento do que significa realmente perfeição é algo quase que inatingível para nós humanos, talvez seja algo próprio de anjos ou coisa que o valha. Ser altruísta ao ponto de abdicar de tudo em prol dos demais é, na minha opinião, a única virtude humana capaz de coroar esse quase que inatingível estado de perfeição do espírito. Não sei se seria capaz de criar novamente um personagem com essa força, espero que sim, mas criá-lo já fez com que me sentisse uma pessoa melhor, pois fui capaz, pelo menos, de entender o que é essencial para galgarmos a estreita escalada da evolução espiritual.
Paraíso da Leitura: Qual o horário em que você geralmente escreve? E quantas horas passa escrevendo, por dia?
CLAUDIO FORTUNATO: Depende do “timing” de cada fase de minha vida e do projeto em andamento. Durante a escrita de Hileia, ficava pelo menos cinco horas por dia debruçado sobre o computador, apesar de trabalhar em expediente normal para sobreviver. Hoje, enquanto escrevo meu novo livro, tenho gastado menos tempo. Hileia me levou praticamente à exaustão para que fosse concluído. Estou tentando me preservar um pouco mais agora, senão não conseguirei concluir os nove projetos para novos romances.
Paraíso da Leitura: Você escreve por prazer ou profissionalmente?
CLAUDIO FORTUNATO: Eu acredito que não há profissão sem prazer, senão é simplesmente um trabalho. Há algum tempo atrás saí de um emprego e me perguntaram se era porque eu ia virar escritor. Fiquei bem chateado, Hileia já estava publicado. Eu ainda não ganho dinheiro com o livro que seja suficiente para viver, isso é verdade, mas acredito que é uma junção das duas coisas, faço profissionalmente, mas não há nada na vida que tenha me dado tanto prazer e sensação de verdadeira felicidade, além do amor, é claro.
Paraíso da Leitura: Como procede na escrita de seus livros? É linear ou vai escrevendo trechos e depois junta tudo?
CLAUDIO FORTUNATO: Antes de “Hileia” eu acreditava que tudo tinha de ser feito de forma linear, que as coisas iam surgindo uma após a outra na sequência lógica dos fatos. A realidade mostrou-me que não é bem assim que as coisas acontecem nesse tipo de processo criativo. Diversos “insights” sobre pontos diferentes do enredo podem vir à mente em ordem cronológica absolutamente absurda. Caso não escreva, ou faça uma anotação, imediatamente após a inspiração, a ideia pode esvair-se e nunca ir parar no papel. Então vou escrevendo conforme as ideias aparecem, e, se necessário, como costumo dizer, faço uma “costura” entre os acontecimentos. Mas não fica parecendo uma estória remendada, rs. Uma boa parte do capítulo 44, por exemplo, foi escrito muito antes que eu tivesse chegado à metade do livro, assim como o capítulo 31. Sendo estes pontos chaves do enredo, tudo o mais que fosse escrito deveria convergir para este desfecho, então, mesmo antes de escrever capítulos anteriores, eu já estava pronto para escrevê-los.
Paraíso da Leitura: Você conseguiu transcrever sua obra como havia imaginado ou mudou de planos a medida que escrevia?
CLAUDIO FORTUNATO: Posso afirmar que o fio central da trama permaneceu inalterado desde o primeiro esboço. Porém, durante o processo, ocorreram muitas ideias de sub-tramas e novos personagens que foram inseridos e se adaptaram perfeitamente ao panorama geral do enredo. Os amigos que liam os capítulos me deram também ideias informando coisas que eles temiam que pudessem acontecer aos personagens, e eu as colocava lá. Se eles as temiam é porque lhes causariam fortes emoções, e essa é a intensão de uma obra, causar impacto no leitor. A alma humana se alimenta de emoções. Acho singelo quando uma pessoa tem coragem para chorar durante um capítulo da novela das oito, é a coisa mais próxima de literatura à qual o brasileiro tem acesso diariamente.

~Sobre o Autor
Paraíso da Leitura: Com qual dos personagens da sua obra mais se identifica e por quê?
CLAUDIO FORTUNATO: Guido, com certeza. Há muito de mim nele: Infância complexa e violenta; a cabeça mais nos livros do que na vida real durante a adolescência; certa introspecção e falta de confiança em si mesmo no início da vida adulta; e uma vontade incomensurável de ser justo e correto.
Paraíso da Leitura: Se pudesse ser um personagem de ficção, qual seria e por quê?
CLAUDIO FORTUNATO: Samwise Gamgi. Ele representa os valores mais nobres nos quais acredito: amizade, lealdade e humildade.
Paraíso da Leitura: Quais as suas obras e estilos literários preferidos?
CLAUDIO FORTUNATO: Como escolho com atenção o que leio, devido ao tempo reduzido para tal deleite, muitas vezes tenho a sensação de que meu livro preferido é sempre o que estou lendo naquele momento, que neste caso é “Uma Curva no Rio” de V.S. Naipaul, Nobel de literatura em 2001. Mas existem alguns que marcaram muito minha vida, cada um em sua época, por motivos diferentes. Gosto muito de fantasia, e provavelmente permanecerei com este estilo em minha escrita, mas acabo sempre tendo empatia maior por escritores que ficam no limite entre a fantasia e o real, como acontece na escola literária de Realismo Mágico. Não sou muito afeito a estas citações, pois, às vezes, acabamos por esquecer obras importantes que deveriam ser citadas. Mas vamos ver se consigo ser justo aos títulos que mais me impressionaram em minhas leituras. Seguem na ordem cronológica em que apareceram em minha vida: “Éramos Seis” de Maria José Dupré, “Caminhada” de Hermann Hesse, “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde, “O Senhor dos Anéis” de J.R.R. Tolkien, “O Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago, “1984” de George Orwell, “A Menina Que Roubava Livros” de Markus Suzak, “Neve” de Orhan Pamuk, “A História de Edgar Sawtelle” de David Wrobleski, “Liberdade” de Jonathan Franzen, “A Invensão de Morel” de Adolfo Bioy Casares e “A Sombra do Vento” de Carlos Ruiz Zafón.
Paraíso da Leitura: Você já praticou algum preconceito literário, como julgar um livro pela capa?
CLAUDIO FORTUNATO: Não sabia que isso era um preconceito, mas sempre julgo livros também por suas capas, até já comprei alguns só por causa delas, rs. Mas vou me explicar. Na verdade acredito que determinados estilos acabam entrando em sintonia com suas capas. Raramente se vê por aí livros de fantasia com capas monocromáticas, por exemplo. Elas sempre vêm com belíssimas ilustrações de seres imaginários em plena ação. Os profissionais de hoje em dia estão cada vez mais acurados com relação a este tipo de trabalho, então é muito difícil se ver capas feias, apenas capas que se adaptam mais a este ou àquele público leitor. Então quando vejo uma capa “x” ou “y”, já imagino se aquele livro poderá me agradar ou não. Uma coisa que já fiz, por exemplo, foi escolher dentre várias edições de uma mesma obra, a capa com a qual eu me identificava mais, mesmo sendo mais cara.
Paraíso da Leitura: Com quantos anos você começou a escrever?
CLAUDIO FORTUNATO: Oito, e levei uma “tunda” por causa disso. Mas seria uma história longa para contar aqui.
Paraíso da Leitura: Atualmente você trabalha exclusivamente como escritor? Qual a sua rotina?
CLAUDIO FORTUNATO: Quem me dera, eu amaria, mas viver de literatura é um privilégio de poucos. Trabalho durante o dia, só escrevo à noite e nos finais de semana.
Paraíso da Leitura: Vi que seu hábito de ler não era bem visto pelos colegas e amigos, que eles consideravam que estava no “caminho da loucura”. Como lidou com isso?
CLAUDIO FORTUNATO: Fui perspicaz o suficiente para perceber que as pessoas que falavam isso sempre apontavam nos outros algum fator de destaque que levaria todos à loucura. Então mergulhei na minha loucura de cabeça.
Paraíso da Leitura: Que coisa os leitores se surpreenderiam de saber sobre você?
CLAUDIO FORTUNATO: Que já fui Fuzileiro Naval. Não só os leitores, todos se surpreendem com isso, rs.

~Divida conosco suas opiniões
Paraíso da Leitura: Em algumas pesquisas, foi verificado que o cidadão brasileiro lê, em média, 4 livros por ano. O que você acha que ocasiona isso e como este resultado poderia ser melhorado?
CLAUDIO FORTUNATO: Pela forma como ocorreu minha iniciação à leitura na escola, e bem como continuo a perceber que isso ocorre hoje em dia, acredito que o interesse da criança pela leitura não é bem gerenciado pelas escolas. Pode parecer uma heresia falar tal coisa, mas as escolas solicitam a leitura de livros que não atraem o interesse destas crianças para o universo literário. Enquanto eu preenchia intermináveis fichas de leitura de clássicos da literatura luso-brasileira para apresentar aos professores, eu me refugiava na biblioteca durante o recreio para ler Exupéry e Irmãos Grimm. Não que os clássicos citados não sejam excelentes livros, porém precisam de um público adequado. O que quero dizer é que todos gostam de ler, assim como todos gostam de música, o que é necessário é apresentar o livro certo para a pessoa correta, senão “babau”. Oferecer literatura que não incite desejo por mais na criança pode gerar sua ojeriza pelo universo literário, o que pode não ser consertado pelo resto da vida. Quem não conhece diversas pessoas que afirmam incessantemente: “Eu não gosto de ler.”?
Citando os que gostam de ler acredito que os piores “problemas” a serem enfrentados são a administração do tempo e o preço dos livros. O consumo de arte, seja ela de que espécie for, nunca foi barato.
Paraíso da Leitura: Nenhum brasileiro foi Prêmio Nobel. O que você acha que os nossos escritores precisam para um dia receberem o Nobel de literatura?
CLAUDIO FORTUNATO: Na verdade ainda não entendi até hoje porque Jorge Amado não conquistou essa honraria. Já li diversos ganhadores do prêmio e não tenho dúvidas de que eles mereciam tal reconhecimento. Talvez não tenhamos conseguido projeção mundial suficiente com algum autor que realmente fizesse jus ao prêmio, os que conseguiram se destacar internacionalmente simplesmente não o mereciam ainda, nunca confundo sucesso com qualidade, nem vice-versa. Só tenho certeza de não termos sido vítimas de nenhum preconceito, acredito plenamente na confiabilidade dos critérios de quem julga uma premiação como essa.
Paraíso da Leitura: Você acha que os autores brasileiros são pouco valorizados no seu próprio país?
CLAUDIO FORTUNATO: Toda arte é valorizada no Brasil, seja a de alta ou a de baixa qualidade, sejam artistas nacionais ou estrangeiros, assim ocorre também com a literatura. Os escritores brasileiros são valorizados sim. A novela das 11 é baseada na obra de um dos maiores escritores que este país já teve, e as pessoas adoram. Acredito que a questão aqui seja o número de pessoas que valorizam esse ou aquele tipo de literatura. Infelizmente, ou felizmente, não sei; estamos sendo assolados por uma onda de escritores de histórias que parecem nunca ter fim, e quando um livro é aclamado pelo público já logo perguntam quando vai sair o volume dois, como se uma estória não pudesse mais ter o dom de ser desenvolvida por completo em um único volume; mas temos a vantagem de que as pessoas pelo menos estão lendo, o que é um ponto muito positivo. Melhorar a qualidade dessa leitura é um segundo ponto importante, independente de ser um escritor nacional ou estrangeiro. Assim como Sócrates a literatura é uma cidadã do mundo, e como tal deve ser tratada. É importante aprender a separar o joio do trigo, mas antes disso é importante ser feliz com o que se está lendo. Sem um leitor satisfeito a literatura não se aplica ao que ela se propõe.
Paraíso da Leitura: Quais conselhos você dá para quem quer ser escritor?
CLAUDIO FORTUNATO: Nunca se acanhe do que escreve. Tenha coragem e mostre aos amigos, eles serão os seus melhores companheiros nos primeiros passos, mas implore para serem um pouco mais do que amigos, exija sinceridade. Se não tiverem coragem de mostrar o que escrevem aos amigos, como acreditam que terão coragem de mostrar a milhões de leitores?
As ideias mais absurdas podem render os melhores enredos, fuja do comum.
E por fim, sem esse atributo não chegará nem a concluir sequer o primeiro capítulo: tenha persistência.
Paraíso da Leitura: Novamente agradeço pela entrevista. Gostaria de deixar um recado para seus leitores e fãs?
CLAUDIO FORTUNATO: Sim, gostaria. Costumo parafrasear Zafón para boa parte de meus leitores: Um livro possui duas almas, uma de quem o escreve, outra de quem o lê. Estarei conectado a todos vocês, de alguma forma, para sempre.