17/11/2012

Nas Entrelinhas com Luís Boto

Luis Boto nasceu em Ibiapina/CE em 06/07/1975, mas ainda no primeiro ano de idade mudou-se para Sobral, capital da zona norte do estado, a 220km de Fortaleza.
Estudou no ensino particular, como nos colégios Patronato, Sobralense e Luciano Feijão, e ingressou na faculdade apenas em 2005, no curso de Ciências Contábeis da Universidade Estadual Vale do Acaraú, tendo concluido o bacharelado em 2011.
É Servidor Público Federal desde 2003, casado e pai de quatro filhos.
Amante das artes literárias desde sua infância, tendo lido diversas obras de grandes autores e escrito outros vários manuscritos para praticar o hábito de escrever, especializou-se em histórias cujo tema principal são aventuras ramânticas no sertão nordestino, tendo concluído sua primeira obra em 2011, o romance sertanejo "Terra sem Lei", repleta de muita ação e romantismo, tendo como cenário o árido sertão nordestino.
Retirado do site do autor.


A Entrevista
Paraíso da Leitura: Olá, Luis. Obrigada por ceder esta entrevista!

~Sobre a Obra
Paraíso da Leitura: A impunidade é uma triste realidade de algumas regiões do Brasil. O que fez com que decidisse abordar este assunto em “Terra Sem Lei”?
Meu objetivo na história era fazer um duelo de dois sentimentos: amor e ódio. A impunidade dos atos praticados durante o período do coronelismo caíram como uma luva para o pano de fundo de toda história, dando um motivo para tudo.
Paraíso da Leitura: A vingança é base de inúmeras obras. Quais as dificuldades decorrentes de escrever neste tema, que já foi exaustivamente explorado? Com certeza o sentimento de vingança já foi e ainda é bastante abordado em todo tipo de expressão artística, seja na literatura, no teatro, no cinema, na música, em fim. O grande desafio está justamente em fazer algo diferente e original dentro de um assunto tão batido. Foi justamente esse desafio que me estimulou a escrever cada linha de “Terra sem Lei”, e confesso que não foi nada fácil, no entanto foi extremamente prazeroso.
Paraíso da Leitura: No seu livro, além da frieza da vingança você também explora o romance, o amor praticamente impossível entre dois jovens. Como foi para você equilibrar esses dois lados opostos da trama? Outro grande desafio para mim foi justamente não tirar o foco da essência da personalidade de cada personagem. Vivian representa o lado romântico e apaixonante da história, enquanto João é o vingador, tão frio e cruel quanto seus algozes, porém, guarda dentro de si um pouco de brandura, sensibilidade e até mesmo uma certa carência de afeto. O romance dos dois faz com que um compartilhe um pouco dos sentimentos do outro, no entanto isso não é capaz de mudar suas personalidades, mesmo que no final da história seja justamente isso que faz a diferença.
Paraíso da Leitura: João Filho é um personagem marcante e o classifiquei como o melhor de todos os livros que li este ano. Um misto de coragem, bondade e determinação com crueldade e frieza. Conte-nos como foi a experiência de criá-lo. Pode-se notar claramente que “Terra sem Lei” é algo como um faroeste no meio do sertão brasileiro, logo, me inspirei de forma significativa nos mocinhos desses tipos de história, adicionando elementos que o tornam único, como o amor pela família, a paciência, inteligência e o raciocínio rápido, o valor que ele dá à amizade e a sua nobreza, ainda intacta apesar dos sofrimentos que a vida lhe impôs.
Paraíso da Leitura: A estória se ambienta no nordeste brasileiro durante a I Guerra Mundial. Por que esta época e este lugar? Primeiramente eu quis que a estória se passasse no tempo do coronelismo, uma vez que os desmandos e a impunidade desse período facilitaram bastante justificar o título da obra, ou seja, eu quis realmente mostrar um lugar onde não existisse lei, mas sim a vontade de poucos sobre a submissão de muitos. Para dar um ar de faroeste, resolvi voltar ao inicio do século XX, por volta de 1918, período em que ainda não existiam veículos automotores no nordeste do País, mas sim carruagens puxadas a cavalos. Juntando isso ao árido sertão do Ceará, vislumbrei o cenário e o tempo perfeitos para contar a estória. Além do mais, escrever algo que se passa numa região em que você conhece é muito mais fácil e até prazeroso de se fazer.

~Sobre o Autor
Paraíso da Leitura: Quando você começou a escrever? Escrever um livro, uma história completa sempre foi um sonho para mim. Várias foram as tentativas frustradas, em que comecei a escrever e não terminava por um motivo ou outro. Ainda na infância escrevi vários rascunhos de diversas histórias que acabaram ficando perdidos no tempo. “Terra sem Lei” é, portanto, uma realização pessoal e uma experiência maravilhosa.
Paraíso da Leitura: Quais foram as suas maiores inspirações? Na verdade minha inspiração vem basicamente do hábito de ler, porém sou muito influenciado por filmes e pela música também. Sempre procurei ler escritores nacionais, e por isso mesmo me identifiquei muito com histórias regionais como as de Domingos Olímpio, José Cândido de Carvalho e Ariano Suassuna. É claro que li alguns escritores estrangeiros como Arthur Conan Doyle e J. R.R. Tolken, os quais influenciaram bastante na minha forma de escrever.
Paraíso da Leitura: Escrever um livro demanda tempo e trabalho árduo. Como sua família e amigos reagiram à necessidade de se dedicar completamente à obra? Nunca foi possível me dedicar cem por cento à obra. Eu sempre escrevi um pouco num dia, depois numa semana e as vezes passava até meses sem escrever e de repente volta a escrever novamente. Para se ter uma ideia, escrevi os doze primeiros capítulos de “Terra sem Lei” em 2001, parei por vários anos devido à correria do trabalho para só concluir em 2010/2011. Minha família sempre deu a maior força para que eu terminasse. É claro que a crítica positiva que o livro vem recebendo na blogosfera e a primeira tiragem de 1.000 exemplares esgotada, só fazem me estimular a escrever mais, tanto que já estou com praticamente metade do segundo livro pronto.
Paraíso da Leitura: Todo autor passa por dificuldades na hora de publicar seu livro. Conte-nos como foi esse processo para você. A vida de autor desconhecido não é nada fácil, isso todo mundo sabe. Após a conclusão do livro, em setembro/2011, passei a procurar na internet por editoras pequenas e que dessem algum apoio para novos escritores, pois depois de muito pesquisar, percebi que não adiantaria enviar os originais para grandes editoras, uma vez que elas sequer se dariam ao trabalho de ler a história. Enviei os originais por e-mail para várias editoras, onde várias me retornaram com o interesse puramente comercial, ou seja, queriam apenas produzir o livro e me vender toda a tiragem, o que não era do meu interesse. Mas para a minha grande surpresa, em pouco mais de um mês recebi o contato do Léo Kades, Editor-chefe da Editora Dracaena, mostrando bastante interesse na obra e com uma proposta de comercialização e divulgação do livro de uma forma que me agradou bastante. Praticamente na mesma semana fechamos o contrato. O resultado foi uma capa linda e um acabamento extremamente profissional, sem falar no book-trailer, que ficou maravilhoso!
Paraíso da Leitura: O sonho mais óbvio de todo escritor é ter sua obra adaptada para as telonas. Quais atores você escolheria para o elenco de “Terra Sem Lei”? O sonho de qualquer escritor é sem dúvida ver seu livro reproduzido no cinema, e eu não poderia ser diferente. Tanto que pensei nisso desde quando comecei a escrever “Terra sem Lei”, optando por desenvolver uma história bem regional, com cenários e figurinos típicos do sertão, cuja uma eventual produção cinematográfica teria um custo bem menor do que a produção de um filme de uma história baseada num livro de literatura fantástica, por exemplo. Quanto a um possível elenco, isso ai já é um tanto complexo, mas dá pra imaginar o protagonista João Filho sendo interpretado por Henri Castelli, a mocinha Vivian interpretada por Adriana Birolli, e ainda o vilão Carlos Lucena sendo feito por Antônio Fagundes. Bom, isso seria um sonho!
Paraíso da Leitura: Com qual dos personagens da sua obra mais se identifica e por quê? Lendo a sinopse do livro, fica claro a grande ênfase que é dada ao protagonista, o herói vingador João Silva. No entanto, no decorrer da trama a mocinha da história, Vivian Lucena, ganha uma importância e uma presença tão marcantes que às vezes chega a ofuscar o brilho do herói dentro da estória. Por tanto, o casal João e Vivian definitivamente são os grandes protagonistas, e por isso mesmo são os meus personagens “queridinhos” e que, com certeza, serão também daqueles que lerem “Terra sem Lei”
Paraíso da Leitura: Se pudesse ser um personagem de ficção, qual seria e por quê? Desde criança sou muito fã do Homem Aranha, no entanto se eu fosse um personagem de ficção, preferia ser o Batman, devido a ele sempre conseguir vencer mais usando sua inteligência do que a força bruta. Vejo ele como um mestre dos super-heróis.
Paraíso da Leitura: Que coisa os leitores se surpreenderiam de saber sobre você? Sou Contador e, por isso, gosto de fazer tudo muito bem planejado. E é também por isso que só começo a escrever um livro quando eu já tenho planejado toda a estória, ou seja, eu já sei por onde ela vai se desenvolver e como vai acabar. Ainda tenho dúvidas se isso é bom ou não para o processo criativo.

~Sobre seus Métodos
Paraíso da Leitura: Encaremos a verdade: só a J. K. Rowling pode viver por conta de seus livros. Como você concilia o trabalho e a escrita? É claro que não vivo da renda de “Terra sem Lei”. Quem sabe um dia! O livro é na verdade uma forma de expor e divulgar o meu trabalho literário. Sou Contador e Servidor Público, ou seja, trabalho o dia todo. Portanto tenho apenas a noite para escrever, quando o cansaço deixa.
Paraíso da Leitura: “Terra Sem Lei” é um livro consideravelmente extenso. Quanto tempo levou para finalizá-lo? Escrevi os doze primeiros capítulos de “Terra sem Lei” em 2001, parei por vários anos devido à correria do trabalho para só concluir em 2010/2011. Mas somando-se apenas o tempo de efetiva escrita para terminar a estória, levei algo em torno de 8 meses para concluir as 480 páginas do livro.
Paraíso da Leitura: Os “brancos” são uma realidade aterrorizante para qualquer autor. Como você lida com esses períodos de produtividade zero? Na verdade não me incomoda, pois não entro em desespero pelo fato de não estar saindo nada da cabeça para pôr no papel. As ideias acabam surgindo naturalmente mais cedo ou mais tarde. Acredito que essa é uma vantagem de um autor que não depende da venda de seus livros para viver, pois as ideias surgem mais facilmente quando se está tranquilo e em paz, ao passo que um autor que vive da literatura tem a ansiedade como inimiga, e talvez isso acabe provocando os “brancos” periódicos de criação.
Paraíso da Leitura: Você escreve a trama de forma linear ou apenas escreve o que vai imaginando para depois “costurar” tudo? Sou o típico escritor “projetista”. Primeiramente traço todo o escopo da estória, o inicio, o desenrolar, as tramas paralelas, até o grande final. Somente depois de concluída essa fase é que passo para escrever e desenvolver o texto de cada etapa previamente projetada.
Paraíso da Leitura: Você se inspira nas pessoas ao seu redor para criar os personagens? Se sim, quem foi seu primogênito e em quem se inspirou? Criei cada personagem de “Terra sem Lei” com muito carinho e esmero, procurando sempre dar um toque de originalidade aos mesmos, por isso mesmo evitei me inspirar em personagens de outras estórias ou de pessoas ao redor. Mas não tive como evitar moldar Vivian Lucena à imagem de minha filha mais velha, cujo primeiro nome também é Vivian. Os olhos, cabelos, o jeito de ser, sem dúvida inspiraram a personagem.
Paraíso da Leitura: Você conseguiu transcrever sua obra como havia imaginado ou mudou de planos à medida que escrevia? Quando projetei a estória originalmente, fiz um final um tanto trágico, para não dar aquele velho clichê de tantas estórias “e foram felizes para sempre”. Mas durante o desenrolar da trama acabei me apaixonando tanto pelos próprios personagens que no ultimo instante resolvi mudar para um final mais dentro do padrão, sem tirar do mesmo o desfecho surpreendente.

~Divida conosco suas opiniões
Paraíso da Leitura: A cada dia, novos talentos brasileiros são descobertos. Você acha que essa é a grande chance do Brasil se destacar na literatura mundial? Claro que sim. A safra de novos autores no Brasil é maior a cada ano. As publicações independentes estão fazendo a literatura brasileira aflorar para o mundo. Acredito que é questão de tempo para o Brasil ser verdadeiramente reconhecido na literatura internacional.
Paraíso da Leitura: Em algumas pesquisas, foi constatado que o cidadão brasileiro lê, em média, 4 livros por ano. O que você acha que ocasiona isso e como este resultado poderia ser melhorado? Os brasileiros ainda têm “medo” de ler, acham que isso é hábito apenas para a classe média/alta, e não se dão conta de que os livros estão a disposição tanto em livrarias particulares como em bibliotecas públicas, somente esperando para serem apreciados. É sem dúvida uma questão de cultura que deve ser tratada pelos governantes no sentido de estimular a leitura para todas as classes.
Paraíso da Leitura: Nenhum brasileiro foi Prêmio Nobel. O que você acha que os nossos escritores precisam para um dia receberem o Nobel de literatura? Sinceramente, acho o Prêmio Nobel uma comenda política. A decisão ou voto final nunca leva em conta 100% o mérito do candidato, sempre vai haver por trás uma pontinha de conveniência ou interesse de alguém. É verdade que o Brasil nunca ganhou o Nobel de Literatura, mas que tem e teve escritores que mereceram ganhar, com certeza sim.
Paraíso da Leitura: Você acha que os autores brasileiros são pouco valorizados no seu próprio país? Infelizmente ainda sim. Veja que os autores estrangeiros vendem milhares de livros no Brasil, ao passo que os nacionais são deixados em segundo plano, como se somente os autores americanos e ingleses fossem bons. Eu me considero um entusiasta da literatura brasileira, e ainda devo dizer que não tenho nada contra os autores estrangeiros, porém faço questão de comprar e ler apenas livros de autores nacionais. Os estrangeiros, deixo em segundo plano.
Paraíso da Leitura: Quais conselhos você dá para quem quer ser escritor? A dica que dou é: não desista! Por mais que demore a conclusão da obra, nunca deixe de escrever um pouco hoje, um pouco amanhã ou um pouco num mês e depois noutro, e assim por diante. Da mesma forma que existem escritores que levam três ou quatro meses pra escreverem um livro, existem outros que levam anos para terminar. E quando terminar o original, não se acanhe em divulgar, mostrar para editoras e nunca se incomode com os “nãos” que irá receber, pois serão muitos até tudo dar certo.


Paraíso da Leitura: Novamente agradeço pela entrevista. Gostaria de deixar um recado para seus leitores e fãs? Primeiramente, gostaria de agradecer pela oportunidade e que foi muito bom fazer a entrevista. Aos leitores fica a dica para conhecerem essa empolgante história de aventura, romance e muita ação pelo sertão nordestino, e que tenho certeza de que não irão se arrepender. Também quero agradecer aos leitores por gastarem um pouco do seu tempo lendo esta entrevista. Muito obrigado, e espero que leiam “Terra sem Lei”, comentem e critiquem, pois somente os leitores definem o verdadeiro sucesso de uma obra literária.

Um grande abraço a todos!