12/04/2017

Desprovida

Ela passava facilmente despercebida no meio da multidão. Não possuía nada de especial ao primeiro olhar: ombros caídos, cabeça baixa, olhos que se distanciavam da realidade. Ela passava despercebida na vida. Não cultivava amizades sinceras e duradouras, e costumava isolar-se em qualquer lugar que pudesse oferecer a tranquilidade que não encontrava em seu interior.
Aparentava viver em paz. Uma paz que incomodava e afastava quem ousasse interferir em seu suposto equilíbrio. Parecia ser o suficiente para si mesma, sem que a falta de alguém consigo se fizesse notar. Por dentro, era um turbilhão de sentimentos que se enroscavam, se emaranhavam e faziam estragos irremediáveis em sua alma, já aquebrantada e acostumada à solidão inerente ao peso do pesar. Ao peso do culpar. Ao peso do lembrar. Ao peso de, a cada mísero dia, se odiar.
Se, talvez por um acaso do destino, alguém um dia decidisse notá-la a descreveria com apenas uma palavra: desprovida. Desprovida de laços, de sonhos, de viver - no sentido mais amplo da palavra. Desprovida de si. Há muito não sabia o que era sorrir espontaneamente, ver a beleza da vida ou a sua própria. Há muito convivia apenas com um buraco negro no peito que sugava qualquer centelha de esperança, de felicidade, de possibilidade. 
Possuía o estranho hábito de olhar para o céu, irrequieta. E, se questionada a respeito, diria estar procurando na imensidão do vazio um sentido na existência. Um amor entre desamores, apego em desapegos. Uma resposta na constância da dúvida. Talvez...

Postagem original em 22/09/2015. Atualização em 12/04/2017.