19/10/2015

[Resenha] Minha Ideia de Diversão

Título Original: My Idea of Fun
Autor: Will Self
Editora: Geração Editorial
Páginas: 371

O enredo trata das chocantes aventuras de Ian Wharton, executivo da área de marketing e sua trajetória alucinada por um mundo distorcido, em que as pessoas se divertem cortando cabeças de mendigos e praticando sexo (para usar uma expressão elegante) com o buraco sanguinolento do pescoço da vítima. Ou consumindo drogas. Ou assassinando a própria mulher e arrancando de seu útero a criança que ainda não nasceu. São coisas estapafúrdias, tão chocantes, tão exasperadas, tão horripilantemente demoníacas que em determinado momento já não se sabe o que é realidade ou o delírio de um narrador ensandecido. Este é um dos grandes achados deste romance - o leitor é obrigado a participar.

Memória eidética caracteriza-se pela capacidade do indivíduo lembrar das coisas que vê com determinada perfeição, àquilo que muitos chamam de memória fotográfica. Ian Wharton é um eidético. Tendo sido abandonado pelo pai ainda criança e criado com uma mãe que mais o tratava como amante do que filho, Ian cresceu sobre a tutela do sr. Broadhurst, que aparentemente era um amigo da família. Conforme vai se desenvolvendo, ele aprende  a lidar com seus dons e acaba se envolvendo com O Controlador Gordo, uma espécie de mago atual (transcendental), que guia praticamente toda a sua vida e o leva a praticar "pequena ofensas" sem que o saiba.

"O homem que ela ama, o homem em quem dá bitoquinhas, o homem a cujo corpo curvado no sono ela amolda o seu corpo, duas colheres numa gaveta - é ele o perverso, é ele o encarregado de destruí-la, um Caim emocional de primeira categoria."

O livro promete ser demoníaco, assustador, mas não é nada disso. É no máximo interessante, e é isso que o torna decepcionante, talvez se não houvesse tanta expectativa ele se mostrasse melhor. Há, de fato, algumas parte que podem chocar o leitor, mas não tantas quanto prometidas, nem de longe o suficiente para agradar o apetite de quem já leu outros livros do gênero (como Sade). Além disso, a narrativa por vezes se mostra enfadonha, por tentar apresentar uma linguagem mais rebuscada. Por fim, algo que incomoda bastante na obra é o fato dela poder ser dividida em duas grandes parte: a primeira, contada em primeira pessoa e a segunda, contada em terceira pessoa. Até ai tudo bem, o problema é o último capítulo, que teoricamente devia ser em terceira, mas simplesmente se mostra em primeira pessoa. Enfim, é um livro interessante, mas nada além disso, nada que irá prender a atenção de um leitor já acostumado com "atrocidades" literárias.