17/10/2015

[Resenha] Os 120 Dias de Sodoma

Título Original: Les 120 Journées de Sodom
Autor: Marquês de Sade
Editora: Hemus
Páginas: 364

O prazer dos sentidos é sempre regulado de acordo com a imaginação. O homem só pode pretender felicidade servindo-se de todos os caprichos da imaginação.
Foi incontestavelmente provado que o horror, a sordidez e o medo são os que provocam gozo na prática do coito. Beleza é algo simples; a fealdade é a coisa excepcional. E imaginações fogosas, sem dúvida, preferem o excepcional ao simples.
O prazer sexual é, eu concordo, uma paixão a qual todos os outros estão subordinados, mas na qual todos se juntam.

120 dias, 600 paixões. Quatro libertinos incestuosos, pedófilos e sodomitas, conhecidos como "os amigos", decidem combinar suas enormes fortunas para bancar a maior orgia já concebida pela mente humana. Para isso, selecionam 46 pessoas para servirem aos seus mais enfadonhos caprichos e levam-nas até o chateau Silling, um castelo isolado da propriedade de um deles.
Durante este período, eles cometerão todo o tipo de atrocidades contra suas esposas/filhas e crianças escolhidas a dedo pela sua beleza exímia, enquanto ouvem as histórias de prostituas experientes sobre todas as perversões que já testemunharam.
Marquês de Sade foi preso diversas vezes durante sua vida, por crimes como tortura, homossexualismo e sodomia. Na Bastilha, munido com um enorme rolo de papel e um lápis, ele escreveu as mais de 300 páginas que compõem o rascunho inicial da primeira parte da obra, além de diversas anotações para a edição final e o plano completo das outras partes do livro. Os 120 Dias de Sodoma estava incompleto quando a Bastilha foi tomada e Sade perdeu seu manuscrito, que apenas muito tempo depois foi disponibilizado para o público.
Apesar da característica reflexiva da obra, os casos ali narrados - que são chocantes e causadores de enjoos constantes - podem se tornar um tanto enfadonhos e cansativos, devido à narrativa rígida e extensa repetição de paixões.
Esta não é uma obra que se lê pelo erotismo. É antes uma obra que se lê, aos trancos e barrancos, pelo seu conteúdo crítico e filosófico a respeito da natureza vil do homem livre de amarras sociais e morais. É um quadro de toda a impureza do ser humano, que goza privilégios a custo da desgraça alheia. Visto por este lado, o livro de Sade pode ser considerado como uma provocação ao leitor, para que este mergulhe em toda a sordidez contida em suas profundezas.