04/05/2016

[Resenha] Das Estrelas

Autor: Mariana Cestari
Editora: D'Plácido
Lançamento: 2016
Páginas: 206

Quando Mabel Grace se auto-diagnosticou depressiva, não imaginou que a vida, a partir daquele ponto, seria tão difícil. Ela deveria estar estampando manchetes de jornal, ganhando prêmios Nobel da Física, arrasando em olimpíadas acadêmicas... definitivamente não deitada no chão seu porão escuro enquanto enfrenta dores oriundas de sua própria cabeça. Mas, sua condição não é uma escolha.
A chegada de seu antigo rival North St. John parece apenas mais um obstáculo: o garoto passara anos longe de casa, viajando mundo afora ao lado de sua mãe fotógrafa, e volta a ilha para celebrar o casamento de seu pai.
Para ele, é impossível considerar o fatídico encontrão com Mabel, em uma madrugada estrelada, uma mera coincidência. Afinal, o bater das asas de uma borboleta no Japão pode fazer com que dois adolescentes problemáticos apaixonem-se em uma pequena ilha na costa brasileira.
Em meio a aventuras de proporções rotineiras, North e Mabel aprendem a lidar com seus medos e acabam por compreender que nem tudo pode ser descrito por fórmulas matemáticas.

Mabel Grace é uma garota extremamente inteligente, do tipo que sai no jornal e é cobiçada pelas maiores Universidades do mundo. Devido a toda a sua racionalidade, foi uma surpresa quando, depois de alguma crises no porão, ela se autodiagnosticou depressiva. D-e-p-r-e-s-s-ã-o.

"Algumas pessoas dizem que depressão é como se asfixiar enquanto os outros respiram livremente. Eu diria que a depressão é repleta de momento em que você se afoga sozinho, a pressão estourando seus tímpanos, mas, então, é como se alguém te puxasse para a superfície, a sensação de respirar outra vez é libertadora, mesmo que você saiba que uma hora você vai voltar para lá. Seja lá quem tenha te tirado da água, nunca te aguentará para sempre."
North St. John não fica atrás no quesito genialidade. Ele volta para Stellarum Littore muitos anos depois de ter partido numa viagem pela Europa com sua mãe fotógrafa. C-a-p-c-i-o-s-o. A palavra que nem North nem Mabel jamais esqueceriam: marcava a primeira e única vez em que Grace perdeu, num campeonato de soletrar.
A volta de seu arqui-inimigo trará grandes mudanças na vida de Mabel e de North. Juntos, eles terão que aprender que nem tudo é exato ou sequer explicável, e que seus medos não podem ser evitados para sempre.

"- Acho que eu gosto de você, St. John, eu realmente acho.
- Mas que sorte a minha - reclamei. - Eu tenho certeza que gosto de você, Grace.
Ela riu.
- Não pode me pedir certezas. Não seguimos o método científico."

Por mais que goste de romances água com açúcar, esperava dessa obra mais do que isso - e encontrei. A narrativa é em primeira pessoa, intercalando entre Mabel e North, e flui muito bem tornando Das Estrelas uma leitura rápida. Minha única ressalva está no enredo: senti que as coisas aconteceram rápido demais e, por volta da metade do livro, a trama já não tinham muito nexo, ficou um pouco desamarrada. Mabel é um personagem muito bem desenvolvido, assim como sua melhor amiga Catarina e North - outros, que não possuem tanto destaque, também têm suas personalidades muito bem delineadas.

"E a cada frase inesperada que saía da sua boca, mais culpado me sentia por tê-la considerado uma coisa exata e imutável. Mabel era como um labirinto que eu jamais conseguiria decifrar."

Um dos fatores que mais me atraiu para essa obra, no meio de tantas outras no estande da D'Plácido foi - além da capa fofa - o fato de que a personagem principal sofria de depressão. Inicialmente fiquei com medo do transtorno acabar sendo retratado como algo simples e de certa forma "romântico", mas esse receio se mostrou infundado. Mariana Cestari conseguiu, nessas poucas páginas, demostrar bem a inconstância de alguém depressivo e a dificuldade que a pessoa tem de continuar, por mais que se esforce.
"- É uma palavra de muitas faces - ele disse, rindo. - Você é tão capciosa, Mabel Grace...
- Capciosa significando número um, dois ou três?
- Capciosa significando número quatro. O significado número quatro é intuitivo para nós.
Eu sorri, sentindo um arrepio delicioso na altura do estômago."