22/07/2016

[Resenha] Diga aos Lobos que Estou em Casa


1987. Só existe uma pessoa no mundo inteiro que compreende June Elbus, de 14 anos. Essa pessoa é o seu tio, o renomado pintor Finn Weiss. Tímida na escola, vivendo uma relação distante com a irmã mais velha, June só se sente “ela mesma” na companhia de Finn; ele é seu padrinho, seu confidente e seu melhor amigo. Quando o tio morre precocemente de uma doença sobre a qual a mãe de June prefere não falar, o mundo da garota desaba. Porém, a morte de Finn traz uma surpresa para a vida de June – alguém que a ajudará a curar a sua dor e a reavaliar o que ela pensa saber sobre Finn, sobre sua família e sobre si mesma. No funeral, June observa um homem desconhecido que não tem coragem de se juntar aos familiares de Finn. Dias depois, ela recebe um pacote pelo correio. Dentro dele há um lindo bule que pertenceu a seu tio e um bilhete de Toby, o homem que apareceu no funeral, pedindo uma oportunidade para encontrá-la. À medida que os dois se aproximam, June descobre que não é a única que tem saudades de Finn. Se ela conseguir confiar realmente no inesperado novo amigo, ele poderá se tornar a pessoa mais importante do mundo para June. "Diga Aos Lobos Que Estou Em Casa" é uma história sensível que fala de amadurecimento, perda do amor e reencontro, um retrato inesquecível sobre a maneira como a compaixão pode nos reconstruir.
Esse livro estava esperando na minha estante há muito tempo. Não sei exatamente o porque, considerando que a capa e o título sempre me atraíram. Fui, mais uma vez, enganada pela minha mania de não ler a sinopse dos livros - gosto de ser pega de surpresa, embarcar numa história sem saber nada a respeito dela antes. Eu esperava encontrar um romance fantástico, muita magia e mistérios nas mais de 400 páginas da obra de estréia de Carol Rifka Brunt. Ao invés disso, encontrei inúmeras lições sobre o amor, a vida e as inevitáveis perdas que temos que enfrentar.
June Elbus é uma garota simples de 14 anos. Sua mais marcante característica é a obsessão com a Idade Média: ela nunca perde uma oportunidade de ir bem fundo no bosque atrás do colégio depois das aulas, até não ouvir nenhum som que a lembre da civilização atual, e fantasiar diversas histórias em um cenário medieval. Nessas horas, June sente que pode ser ela mesma e viver grandes aventuras - uma mudança em sua rotina insossa.
"Observar pessoas é um bom hobby, mas você precisa ter cuidado. Não pode deixar que as pessoas o peguem olhando. Se o pegam, elas o tratam como um criminoso de primeira grandeza. E talvez estejam certas em fazer isso. Talvez devesse ser crime tentar ver nas pessoas coisas que elas não querem que você veja."
A única pessoa que sabe deste hábito é seu tio, Finn Weiss. June sente que apenas ele a compreende e conhece verdadeiramente... Mas Finn está morrendo. Recém descoberto em meados da década de 80, o vírus da AIDS está roubando de June a pessoa mais importante da vida dela. Ainda tratado como um tabu e com muito preconceito - à época, a doença ainda era considerada exclusiva para a "perversão do homossexualismo" - não havia nada que pudesse ser feito para salvá-lo.
"Não faziam ideia de que ouvi-las falar de AIDS, como se essa fosse a parte importante da história - mais importante do que quem Finn era, ou o quanto eu o amava, ou o quanto ele ainda estava partindo o meu coração a cada hora de cada dia -, fazia-me querer gritar."
Finn faz um último pedido para a sua irmã distante: a oportunidade pintar um quadro tendo como modelos June e sua irmã mais velha, Greta. A pintura, além de propiciar mais momentos entre sobrinha e tio, também será uma peça importante na história daqueles que tiveram uma relação forte com Finn - o quadro é tão importante na narrativa quanto qualquer outro personagem.
No funeral de Finn, Jude avista ao longe uma figura que tenta à todo custo fazer contato visual com ela. Quem seria aquele, que Greta diz ser responsável pela morte de seu querido tio? É a partir de cartas com endereços estranhos e encontros secretos que Jude descobrirá coisas sobre si própria, sua família e seu tio que jamais desconfiaria. Com uma companhia improvável, ela realizará a jornada pelo caminho do perdão e da compaixão, verá que a vida não deve se limitar ao certo e ao errado, e que nem sempre o amor segue as regras - e que está tudo bem se não seguir.
"Fiquei deitada na cama pensando em tudo no meu coração que era possível e impossível, certo e errado, pronunciável e impronunciável, e, quando todos esses pensamentos tinham ido embora, apenas uma coisa restou: a saudade terrivelmente grande que eu sentiria do meu tio Finn."
Admito que inicialmente fiquei um pouco decepcionada. Como disse, esperava uma fantasia - principalmente devido ao projeto gráfico da capa - e quando ela não apareceu me senti um pouco insegura sobre o que viria a seguir. A leitura só valeu mesmo a pena a partir desse momento, em que eu me entreguei totalmente para qualquer coisa que a autora desejasse me mostrar. Me emocionei. E ainda hoje, dias depois de finalizar a obra, penso em tudo que aprendi e senti com a história de Judy. Diga aos Lobos que Estou em Casa é um livro que vai te encantar - se você permitir.
"- Você não sabe? Esse é o segredo. Se você sempre garantir que é exatamente a pessoa que esperava ser, se sempre garantir que conhece apenas as melhores pessoas, então não vai se importar de morrer amanhã."

Outros trechos interessantes:

"Porque eu sempre fui assim. Só precisava de um bom amigo e era suficiente. A maioria das pessoas não é assim. A maioria está sempre à procura de mais pessoas para conhecer."
"Eu sentia ter provas de que nem todos os dias tem a mesma duração, nem todo o tempo tem o mesmo peso. Prova de que há mundo e mundos e mundos por cima de mundos, se você quiser que eles estejam ali."
"Olhei com atenção, tentando achar um padrão. Pensando que, se olhasse com cuidado o bastante, talvez as peças do mundo se encaixassem de novo, formando algo que eu conseguisse entender."

Autor: Carol Rifka Brunt
Editora: Novo Conceito
Lançamento: 2014
Páginas: 464
Avaliação:★★★★★❤