11/07/2016

[Resenha] O Quarto Dia


Janeiro de 2017. Após cinco dias desaparecido, o navio O Belo Sonhador é encontrado à deriva no golfo do México. Poderia ser só mais um caso de falha de comunicações e pane mecânica... se não fosse por um detalhe: não há uma pessoa viva sequer no cruzeiro.
As autoridades acham indícios de uma epidemia de norovírus, mas apenas descobrem os corpos de duas passageiras. para piorar, todos os registros e gravações de bordo sofreram danos irreparáveis.
Como milhares de pessoas podem ter sumido sem deixar rastro? Teorias da conspiração se alastram, mas só há uma certeza: 2.962 passageiros e tripulantes simplesmente desapareceram no mar do Caribe.
Em O quarto dia, Sarah Lotz conduz o leitor por uma viagem de réveillon que tinha tudo para ser perfeita. Mas às vezes o novo ano reserva surpresas desagradáveis.
Em inglês, Day Four foi divulgado como sequência de The Three. No entanto, a editora Arqueiro - que trouxe os dois livros para o Brasil - publicou como livros independentes, apesar das semelhanças entre as capas e a divulgação de Os Três no verso de O Quarto Dia. Na minha opinião, essa foi uma boa decisão porque eles podem ser lidos como histórias completamente diferentes: O Quarto Dia apenas possui algumas referências a acontecimentos de Os Três (resenha aqui) e, ainda assim, de uma forma diferente do que ocorreu no livro - logo nem pode ser considerado um spoiler que estragará a experiência de leitura do mesmo. O objetivo dessas referências foi, unicamente, situar o leitor no mesmo universo da publicação anterior, contextualizando-o numa série de desastres sobrenaturais.
"Amigos, depois de todos os anos que passei ajudando pessoas a entrar em contato com os que fizeram a passagem, há duas coisas de que tenho certeza: a primeira é que a morte não existe; a segunda é que as almas dos que deixaram o mundo físico estão sempre conosco..."
Talvez agora seja tarde demais, mas minha maior recomendação para ter a melhor leitura com esse livro é evitar a sinopse a todo custo. Eu não costumo ler sinopses, mas como o livro foi apresentado no Dia da Toalha acabou escapando uma informação que eu acho que, se tivesse sido omitida, me surpreenderia totalmente e faria com que a obra fosse favoritada, ao invés de só receber cinco estrelas.
Quando compraram seu ingresso para o cruzeiro de fim de ano no Belo Sonhador, os passageiros haviam sido atraídos pela promessa de alguns dias de descanso e lazer, com direito a shows, sol na piscina, excursões e muita diversão. Apesar da má fama que a empresa proprietária do navio possui, nem o mais pessimista dos viajantes poderia imaginar o que aconteceria à bordo. Durante os três primeiros dias tudo corre bem, sem nenhum imprevisto. No quarto dia, entretanto... Uma pane inesperada e inexplicável faz com que o navio pare no meio do oceano e fique à deriva. O que acontecerá nos dias seguintes fará com que cada um dos passageiros e tripulantes chegue mais perto de seus limites.
"- Você tem sido um garoto malvado, não é? É hora de consertar as coisas. Você vai ser testado de novo, doutor. Todos vão ser. A questão é: vocês vão passar no teste ou não?"
No início do enredo senti falta da narrativa epistolar - por meio de cartas, matérias de jornais, artigos de blogs, por exemplo - utilizada pela Sarah Lotz em Os Três. Como disse na resenha dele, esse estilo acrescentava todo um mistério à trama pois nunca sabia no que acreditar de fato: poderia ser tudo sensacionalismo? Em O Quarto Dia, a narrativa é em terceira pessoa focando em um grupo de sete personagens, que se intercalam dentro dos capítulos. Esse arranjo serviu para fazer com que a leitura fosse fluida e cada vez mais interessante pois quando a parte de um personagem acaba você só descobre o que aconteceu com ele quando ele novamente tem a oportunidade de contar. Senti também uma presença maior do elemento sobrenatural já que, desta vez, você não ficava se perguntando se o que rolava era inventado - mas sim se o personagem estava perdendo a sanidade mental.
O que não muda em nenhuma das tramas é o final aberto. Eu costumo preferir livros que amarrem as pontas, que não me deixem na dúvida, mas o trunfo destes livros é justamente não explicar nada. O leitor fica angustiado sem saber os porquês e os comos, criando diversas teorias mirabolantes para justificar tudo. E para quem está nesse estado, assim como eu, Sarah Lotz afirmou em uma entrevista - que você pode ler, em inglês, aqui - que planeja escrever um livro que trará respostas para os mistérios envolvendo as histórias.
"Tudo isso poderia ser explicado, mas o medo que ela experimentara - uma sensação primitiva, poderosa, de que deveria fugir - ainda a deixava inquieta."
Autor: Sarah Lotz
Editora: Arqueiro
Lançamento: 2016
Páginas: 352
Avaliação:★★★★★