15/08/2016

[Resenha] Cuco


Polly é a mais antiga amiga de Rose. Então quando ela liga para dar a notícia que seu marido morreu, Rose não pensa duas vezes ao convidá-la para ficar em sua casa. Ela faria qualquer coisa pela amiga; sempre foi assim. Polly sempre foi singular — uma das qualidades que Rose mais admirava nela — e desde o momento em que ela e seus dois filhos chegaram na porta de Rose, fica óbvio que ela não é uma típica viúva. Mas quanto mais Polly fica na casa, mais Rose pensa o quanto a conhece. Ela não consegue parar de pensar, também, se sua presença tem algo a ver com o fato de Rose estar perdendo o controle de sua família e sua casa. Enquanto o mundo de Rose é meticulosamente destruído, uma coisa fica clara: tirar Polly da casa está cada vez mais difícil.

A vida de Rose é aparentemente perfeita. Seu marido, Gareth, é um renomado artista, e suas duas filhas, Anna e Flossie, são saudáveis e espertas. Com o fim dos dois piores anos de suas vidas - durante o processo de construção de sua moderna e espaçosa casa - eles finalmente alcançaram a estabilidade financeira e o conforto necessários para melhorar suas vidas de agora em diante.
Um telefonema vai colocar tudo isso em risco. Sua amiga de infância, Polly, traz as piores notícias: seus marido, Christos, também um famoso artista e melhor amigo de Gareth, morreu em um acidente de carro. Sem ter para onde ir e praticamente expulsa pela família do falecido marido, Rose não vê outra possibilidade além de convidar a amiga e seus dois filhos para morar com ela enquanto as coisas se acertam.
“...Por mais afastadas que estivessem, elas sempre pareciam capazes de retomar de onde tinham parado. Rose e Polly eram intimamente ligadas.” 
A presença de Polly, no entanto, trará à tona segredos do passado de Rose - que ela prefere que continuem enterrados - e fará com que, sutilmente, ela perca o controle de sua vida, de sua família e até de sua própria sanidade mental. A sua ilusória vida perfeita é aos poucos arruinada, deixando transparecer todos os problemas que ela, com tanto esforço, escondia de si e do mundo.
Devo admitir que, inicialmente, a leitura de Cuco não fluiu. Levei muito tempo para avançar poucas páginas e, por mais que tenha gostado da narrativa de Julia Crouch e da premissa do livro, não conseguia me entregar à leitura. A culpa não foi da trama, no entanto, mas sim de uma das piores ressacas literárias da minha vida de leitora: A Menina Submersa simplesmente não saia da minha cabeça, e eu estava pensando em Imp enquanto lia sobre presente e passado de Rose.
Acho que isso só aumenta o mérito da autora nessa obra. Mesmo com toda a minha relutância para entrar em outro enredo, Julia Crouch tirou minha noite de sono com as mais de 400 páginas da obra quando as coisas começaram, de fato, a acontecer.
Considerando o tamanho respeitável do livro, era de se esperar que as coisas demorariam um pouco para ficarem tensas. No início, somos apenas apresentados a Rose e a família que ela tanto luta para tornar perfeita - isso fica bem claro com toda a sua preocupação exagerada com cada detalhe da casa em que vão morar e de suas rotinas. Mesmo quando Polly chega, as coisas não começam a se desenvolver direito, só encontramos uma personagem apática e, de certa forma, cruel e sem empatia alguma.
Mas aí acontece um "acidente" - ou, pelo menos, é isso que Rose quer acreditar que foi. A partir desse momento, Cuco cumpre bem o seu papel de thriller psicológico e deixa o leitor completamente agoniado. Por muitas vezes eu precisei parar a leitura, andar um pouco pela casa, tomar uma água e respirar, porque percebia que estava prendendo o fôlego de nervosismo com o que poderia acontecer. Senti muita raiva de Rose, por se agarrar tanto à dita perfeição e não se atentar para o que estava acontecendo bem debaixo do seu nariz - ela encontrava justificativas atrás de justificativas para não ameaçar o tênue equilíbrio que mantinha seu passado conturbado longe de seus pensamentos, por mais que todos ao seu redor a alertassem do perigo.
“- Está aqui a sua receita médica. – Kate pousou a folha fina de papel verde no criado-mudo ao lado de Rose e inclinou-se para beijá-la. (…)
Rose permaneceu ali por alguns minutos, sentindo-se arrasada. Em seguida, ergueu um braço pesado em direção ao criado-mudo, tateando até achar a receita. Abriu-a e a segurou em frente ao rosto até que a vista focasse. Ali, com a caligrafia enérgica e clara de Kate, havia cinco palavras: Mande-a embora de sua casa.”

Ainda não sei bem o que pensar sobre o final da trama. Eu fiquei surpresa com o desfecho que a autora criou, mas também um tanto quanto decepcionada e angustiada pelo mundo de possibilidade que ficaram em aberto. Cuco é um livro perfeito para ir às telonas e super recomendado para aqueles que gostam de um bom suspense que mexa com o seu psicológico de formas inimagináveis.

Autor: Julia Crouch
Editora: Novo Conceito
Lançamento: 2012
Páginas: 461

Até a próxima!