08/08/2016

[Resenha] A Menina Submersa


Com uma narração intrigante, não linear e uma prosa magnífica, Caitlín vai moldando a sua obsessiva personagem. Imp é uma narradora não confiável e que testa o leitor durante toda a viagem, interrompe a si mesma, insere contos que escreveu, pedaços de poesia, descrições de quadros e referências a artistas reais e imaginários durante a narrativa. Ao fazer isso, a autora consegue criar algo inteiramente novo dentro do mundo do horror, da fantasia e do thriller psicológico.
India Morgan Phelps, ou apenas Imp se preferir, nasceu em uma família amaldiçoada. A Maldição da Família Phelps passou de sua avó Caroline para sua mãe, Rosemary Anne. Poderia ter começado bem antes, mas Imp não tem muito interesse em genealogia. Sendo filha única, não havia outra escolha para a conservação da maldição senão ela.
"É um mito que pessoas loucas não saibam que são loucas. Sem dúvida, muitos de nós são capazes de epifanias e introspecção como qualquer outra pessoa, talvez ate mais. Suspeito que passamos muito mais tempo pensando sobre nossos pensamentos do que as pessoas sãs."
Avó, filha e neta sofrem de um transtorno mental chamado esquizofrenia paranoide, uma doença crônica em que a pessoa perde o contato com a realidade, tendo dificuldade em distinguir o que é verídico do que é imaginário. Ou, pelo menos, sofreram. Afinal, Caroline e Rosemary se suicidaram quando a loucura ficou insuportável.
Imp tem uma vida quase normal com o apoio de sua sanidade artificial, composta por várias doses de diversos remédios e gastos excepcionais com sua psiquiatra. No entanto, ela tem uma história para contar. Que ela precisa contar. Uma história de fantasmas, com sereias e lobos.
"Fantasmas são essas lembranças fortes demais para serem esquecidas, ecoando ao longo dos anos e se recusando a serem apagadas pelo tempo."
O pontapé inicial de sua história é dado no dia em que Imp conhece Abalyn Armitage. Não era um momento muito favorável para Abalyn, que tinha acabado de ser despejada pela ex-namorada. Com suas coisas jogadas na rua e uma tempestade a caminho, Imp a leva para seu pequeno apartamento. A convivência entre as duas acaba tornando o que era um abrigo temporário em um relacionamento amoroso.
As coisas começam a desandar quando Abalyn não pôde acompanhar Imp em um de seus costumeiros passeios noturnos. Passear de carro costuma acalmar seus pensamentos. Em certo momento, Imp avista uma mulher nua, molhada e parada no acostamento - Eva Canning, que pode ser tanto uma sereia quanto um lobo, em julho ou em novembro, na primeira ou segunda vez que ela apareceu pela primeira vez.
"Uma coisa que comecei a entender sobre as verdadeiras histórias de fantasmas é que raramente sabemos que elas estão acontecendo conosco até depois do fato, quando somos assombrados e os eventos da história propriamente dita já aconteceram e acabaram."
Paradoxal? Certamente. E um tanto quanto confuso também. Mas descobrimos com o passar do tempo que Imp é uma narradora duvidosa, nos obrigando a questionar o que é real e o que não é. Diferenciar o factual do que pode ter sido criado em sua mente. O fato é que não importa o que eu disser a respeito de A Menina Submersa: Memórias, pois nada chegará nem perto de descrever a complexidade e originalidade dessa obra fantástica.
Caítlin R. Kiernan traz um enredo cheio de referências, desde o assassinato da Dália Negra até o suicídio de Virginia Woolf, passando pelos escritos de H.P Lovecraft e Edgar Allan Poe. Dois artistas, porém, terão um papel crucial na narrativa: Philip George Saltonstall e Albert Perrault. O caso é que ambas as personalidades são ficcionais mas tão críveis que é irresistível procurar por eles na internet. E o que eu descobri foi mais interessante ainda: ambos foram baseados em artistas reais, Michael Zulli e Matthew Jaffee Jestménye respectivamente, que têm seus quadros descritos e utilizados como peça-chave da trama.
No início, é muito difícil acompanhar a linha de raciocínio de India, devido aos distúrbios na organização de seus pensamentos e aos frequentes delírios e alucinações. A narrativa transita entre o presente e o passado sem qualquer aviso prévio e muitas vezes Imp fala consigo mesma em terceira pessoa. Porém, assim que o leitor se acostuma com o ritmo é impossível voltar atrás.
"Digo coisas que não são verdade porque preciso que sejam verdade. É isso que os mentirosos e as pessoas tolas fazem"
A protagonista é cativante e seus mistérios nos deixam cada vez mais presos à trama, sem sabermos no que podemos confiar. A genialidade dessa obra não está no enredo, por mais que este seja instigante, mas nas personagens em si - no que aprendemos enquanto Imp tenta se livrar de seus fantasmas e na apreensão de tudo o que Eva Canning significa, sendo a sereia que leva o herói ao abismo ou o lobo cuja percepção de ser está ameaçada.
A Menina Submersa: Memórias é daquele tipo de livro que te toca profundamente, cuja história fica na sua cabeça por muito tempo após a finalização da leitura pois é difícil digerir tudo o que você vivenciou ali. É do tipo de livro que será lembrado, não importa quanto tempo se passe. Exige entrega total do leitor para sua apreciação. Não vá apenas devido à beleza da edição, ou você poderá acabar morrendo afogado.
"A normalidade é um comprimido amargo do qual reclamamos."


Outros trechos interessantes:

"No fim das contas, todo mundo machuca alguém, por mais que tente não machucar."
"Não acredito em pecado, nem no original nem em outro, mas acredito que as pessoas fazem mal a outras e que imaginar que isso pode ser diferente é apenas pedir para se decepcionar"
"O que mais tememos não é o conhecido. O conhecido, por mais horrível ou prejudicial à existência, é algo que podemos compreender. (...) Mas o desconhecido desliza através de nossos dedos, tão insubstancial quanto o nevoeiro."

Autor: Caítlin R. Kiernan
Editora: DarkSide Books
Lançamento: 2014
Páginas: 317

Até a próxima!