28/08/2016

Uma Brincadeira Fatal

Preparados para a última postagem da Semana Especial Menina Má? Enquanto a Banguela estava pesquisando e montando um monte de postagens legais (que vocês podem conferir aqui) eu estava me dedicando na escrita desse conto um tanto quanto sinistro para finalizar nossa jornada assustadora. Espero que vocês gostem - ou que percam o sono à noite.

Jess estava no fundo da casa, era a vez dela de brincar com os animais que viviam no bosque ali perto. Desde que os gêmeos foram pegos arrancando as penas de um passarinho uma por uma, eles haviam combinado que um sempre ficaria de guarda para quando seus pais - ou qualquer outro adulto - chegassem. Aquela brincadeira rendera dois meses de castigo e algumas palmadas, nada que eles não aguentassem, mas preferiam quando todos achavam que eles eram os anjinhos que aparentavam ser.
Bruno estava ficando com inveja, já fazia quase três horas que seus pais haviam saído e desde então sua irmã estava lá trás. Raramente eles ficavam sozinhos, mais raramente ainda por tanto tempo. Sua mãe era muito protetora e mesmo que eles já tivessem 13 anos, não deixava que os filhos ficassem muito tempo sem alguém por perto. A mãe deles abortara três vezes antes de finalmente se render a inseminação artificial e por isso temia perder seus bens mais preciosos. Bruno já considerava ir ver o que a irmã estava fazendo quando finalmente ouviu o barulho do carro. 
- Jess, termina o que você tá fazendo aí rápido, papai e mamãe chegaram! 
- Tá bom! Mas será que você consegue segurar eles por um ou dois minutos? Eu acho que vou ter que tomar um banho pra eles não desconfiarem de nada. 
- Só se você me contar tudo depois! 
- Fechado! 
Logo depois, Bruno viu sua irmã sair do meio das árvores e correr em direção à casa. Ela estava usando uma camiseta tão longa que caia até os joelhos, e por um momento ele pensou se ela não teria deixado o short para trás, mas logo percebeu que ela o estava escondendo propositalmente. Provavelmente está sujo de sangue. As mãos dela estavam completamente sujas de barro, o que fez com que eles sentisse um pouco mais de inveja, pois sabia o que isso significava. 
Sem poder perder mais tempo, Jess correu para o banheiro sem mesmo se preocupar em pegar a toalha. Ela sempre poderia gritar o irmão ou um dos pais, mas caso fosse pega correria o risco de sua mãe perceber que seu short estava sujo de sangue. Assim que ligou o chuveiro, se pôs lavar o short para que não ficasse manchado. Se a mãe perguntasse, simplesmente diria que sua menstruação havia se adiantado um pouco e ela não estava preparada. Ela também não poderia demorar muito no banho, pois sabia o quando seus pais eram rigorosos quanto ao consumo de energia e como seu irmão estaria ansioso por ouvir sua história. 
Seu irmão a estava esperando no quarto, como ela previra. Não que isso fosse algum mérito para qualquer um dos dois, eles eram tão parecidos fisicamente quanto no modo de agir e pensar. 
- Vamos Jess, me conte como foi. - Conforme dizia essa palavras, Jess pode ver nos olhos do irmão o quanto ele ansiava por ouvir o que ela tinha a contar. 
- Eu não deveria dizer nada, já que você me chamou na melhor hora. - ela estava com aquele sorriso de quem quer alguma coisa. 
- O que você quer pra contar? Não é como se fosse minha culpa papai e mamãe chegarem. - ele também estava sorrindo, conhecia o que a irmã estava fazendo, pois aquilo era apenas um jogo para ambos. 
- Que tal a cabeça da mamãe numa bandeja? - disse ela. 
- Ou quem sabe os dedos do pai empanados e prontos pra viagem? - os dois riam como se estivessem contando piadas. 
- E então? - voltou a perguntar Bruno. 
- Bem, hoje foi particularmente difícil encontrar algum animal com quem brincar. Talvez os animais daqui já tenham aprendido a ficar longe da gente. - e ambos riram novamente, uma risada infantil, mas ao mesmo tempo com algo de sinistro no fundo. - De qualquer forma, eu acabei conseguindo algo com que passar o tempo, como sempre. Dessa vez era um coelho. Eu dei sorte dele não me ver chegando por trás, se não nunca teria conseguido pegar ele. 
- Sério que você conseguiu pegar? Eu sempre tento, mas eles sempre fogem de mim. - se alguém entrasse no quarto naquele momento, veria apenas uma criança arrependida por não ter ido brincar com a irmã. 
- Sim. Ele era todo marrom com uma mancha branca ao redor dos olhos. Eu comecei com o de sempre, quebrando todas as patinhas dele, para que não fugisse. Você devia ter visto como ele guinchava, tão alto, tão excitante. Depois pensei que fosse injusto aquelas manchas brancas e cobri os olhos dele com lama, pra que tudo ficasse de uma cor só. Então decidi abrir ele e ver o que tinha dentro. E foi nessa hora que você me gritou. Eu tinha acabado de esmagar a cabeça dele, por isso meu short estava todo sujo de sangue, respingou pra tudo quanto é lado. Eu joguei ele no rio, como sempre, e depois corri pra tomar um banho. E fim. 
Eles já haviam compartilhado centenas daquelas histórias entre eles, mas sabiam que não podiam compartilhar com outras pessoas. Eles tinha tentado contar isso a outras crianças quando mais novos e sempre eram repudiados por isso. Depois que cresceram, passaram a entender que para os outros isso não era algo moralmente aceito e decidiram guardar para si suas aventuras. Ambos dormiram logo em seguida - eles tinham aula de manhã cedo e não podiam faltar; eram os melhores da classe e pretendiam permanecer assim.

Como de costume, eles acordaram bem cedo na manhã seguinte e foram para a aula. Há anos não precisavam mais que os pais os acordassem ou preparassem seu café da manhã. As aulas correram tranquilas e sem acidentes. Uma vez o valentão da escola tentou implicar com eles, mas isso foi antes dele acidentalmente cair da escada e quebrar o braço. 
Assim que eles chegaram em casa, sabiam que algo estava errado. Seus pais os esperavam na porta de casa e isso nunca tinha acontecido antes. 
- Olá meus amores, como foi na escola hoje? - disse a mãe deles com um sorriso no rosto. 
- Tudo bem, aconteceu alguma coisa? - perguntou Bruno, estranhando aquela situação. 
- Sua mãe e eu queremos conversar com vocês um minutinho. - os gêmeos apenas ficaram olhando para os pais, esperando que eles continuassem - A gente decidiu que já estava na hora de tirarmos uma segunda lua de mel. Então sua mãe e eu resolvemos viajar por alguns dias semana que vem. Vamos passar um tempo na praia e não queríamos que vocês ficassem sozinhos, então contratamos uma babá… 
Apesar de não terem gostado daquilo, assim que os olhos deles se cruzaram, ambos tiveram a mesma ideia: Isso pode ser uma oportunidade para brincarmos com algo diferente de animais
- Tudo bem. - disseram os dois em uníssono. 
- Oh! Achei que seria mais difícil convencer vocês dois. Achávamos que vocês iriam querer ficar sozinhos por pensarem que já tem idade para se cuidarem. 
- Nós de fato achamos que não é necessário uma babá, - respondeu Jess com a voz suave e meiga - mas sabemos o quanto vocês se preocupam com a gente. Se ficássemos sozinhos vocês não conseguiriam aproveitar a viagem. 
- Vocês são filhos maravilhosos! - a mãe os abraçava e beijava, como sempre fazia quando estava feliz com alguma atitude dos dois. - Agora, acho que vocês deviam conhecer a babá, ela está nos esperando na sala. 
Finalmente eles estavam voltando. Apesar de não ter passado nem 30 minutos desde que os meninos chegaram, para ela havia sido uma eternidade. Ela nunca havia trabalhado como babá antes; uma amiga a havia recomendado para a família e ela aceitara. Uma graninha extra sempre caí bem. Por mais que os pais dissessem que os filhos fossem bem educados e fáceis de lidar, ela ainda tinha suas dúvidas. 
- Helen, gostaria de te apresentar meus filhos. Esta com o cabelo mais curto é a Jessica. 
- Prazer em conhecê-la, mas pode me chamar de Jess. 
- E este com o cabelo mais longo é o Bruno. 
- Estava ansioso para conhecer a senhorita, é um prazer. 
Os gêmeos, apesar de fraternos, eram idênticos. Ambos possuíam olhos cor de mel, que transbordavam doçura. Eram do mesmo tamanho e suas feições eram iguais, mesmo que fossem de gêneros diferentes. A única coisa que permitia diferenciá-los era o cabelo. Apesar de ambos possuírem cabelos lisos e pretos como a noite, o dela ia só até os ombros, enquanto o dele continuava a descer até a metade das costas. Até a voz era a mesma. 
- Realmente, são crianças adoráveis. É um prazer conhecer os dois, espero que possamos nos dar bem - respondeu Helen, com um sorriso no rosto. 
Uma semana havia se passado e quando eles chegaram da escola, Helen os esperava com um belo almoço de boas-vindas. Eles devoraram suas refeições rapidamente e em seguida ajudaram Helen a arrumar a cozinha, mesmo que ela dissesse não haver necessidade. Durante a tarde, após terem terminado a lição de casa, sentaram-se na sala de estar junto a Helen para assistir televisão. No início, ficaram apenas sentados, observando sua babá enquanto fingiam prestar atenção nos programas de TV. Ela até tinha perguntando se eles não queriam escolher o canal, mas ambos responderam que ela poderia assistir o que quisesse. Ela deveria se sentir em casa e como mais velha, era ela quem mandava ali. Após algum tempo, quando perceberam que ela havia relaxado com a presença dos dois, eles começaram a fazer perguntas. Quantos anos ela tinha? 23. De onde ela vinha? Sou daqui mesmo. O que ela fazia da vida? Terminando minha faculdade de Terapia Ocupacional. Se ela já havia trabalhado como babá antes? Não. 
Após algumas horas de conversa agradável, os três decidiram pedir uma pizza para comemorar a nova amizade que surgia. Por minha conta, disse Helen. Ela estava achando os gêmeos incríveis. Apesar da diferença de idade, os dois se mostravam mais maduros que muitos dos colegas dela de faculdade. Ela tivera medo que tudo o que a mãe dissera não passasse da famosa ilusão maternal, mas eles de fato eram tudo aquilo. 
Ao se deitarem, os gêmeos sorriam de alegria. O dia tinha passado exatamente como eles haviam planejado, até melhor. A nova babá era inteligente, mas também extremamente ingênua, o que tornaria as coisa ainda mais fáceis para eles. Primeiro eles precisavam da confiança dela, o que com outra pessoa poderia ter levado mais tempo, mas foi tão fácil conquistá-la que parecia até um sonho. Eles não demoraram a dormir, por mais felizes que estivessem - aquilo foi apenas o prelúdio, a diversão começaria mesmo no dia seguinte. 
Ela não precisou nem mesmo acordar os irmãos, eles já estavam de pé quando ela levantou. Eles haviam preparado tanto o café da manhã deles como o dela. Um presente de agradecimento pela pizza de ontem, disseram. Os dois eram realmente crianças maravilhosas. Enquanto comiam, Bruno esbarrou na garrafa de café quente, derramando seu conteúdo nas mãos de Helen e em seu colo. 
- Me desculpe, Helen! - gritou Bruno, assustado com o que tinha feito - Vou pegar uma toalha e gelo pra você. 
Por um momento, logo antes dele se desculpar, Helen podia jurar que viu em seus olhos um deleite sinistro. Ele poderia ter esbarrado na garrafa por querer? Não, aquele pensamento era inconcebível, tanto ele quanto a irmã eram doces e meigos, jamais machucariam alguém deliberadamente. Se ela tinha pensado isso era por causa da dor que estava sentindo.
Assim que voltou, Bruno ajudou Helen a se limpar e a cuidar das queimaduras, enquanto isso Jess secava a mesa e o chão. 
Vocês dois deveriam ir para a escola, podem deixar que eu cuido do resto aqui. 
- Certeza, Helen? Você não acha que deveria ir em um médico olhar essas queimaduras? - perguntou Jess,  preocupada. 
- Não foi nada de mais, já fiz pior comigo mesmo quando estava aprendendo a cozinhar - e riu, lembrando de todas as vezes que se queimara na cozinha. - Agora façam o favor de irem para a escola. A mãe de vocês me mata se chegarem atrasados. 
Os acidentes deveriam começar apenas na hora do almoço, mas Jess havia adorado o que seu irmão fizera. Por um momento ela pensou que a babá havia percebido que Bruno não esbarrara na garrafa, mas sim a empurrara. Mas esse pensamento logo se dissipou, dando lugar ao prazer de ver quanta dor um pouco de café quente poderia infligir. 
Quando eles chegaram, ela já tinha preparado todo o almoço. Os gêmeos pareciam animados mas, quando ela perguntou, eles apenas disseram que estavam ansiosos pelas brincadeiras que tinham planejado para aquela tarde. Eles ainda agem como crianças, talvez a preocupação da mãe não seja tão infundada assim. Após a refeição, Jess insistiu para ajudar a arrumar a cozinha e a lavar as louças. Mas, na hora em que estava tirando as panelas da mesa, acabou tropeçando e espetando o braço direito de Helen com uma faca de cortar carne. 
Novamente, ela viu aquele olhar de deleite nos olhos, mas dessa vez era Jess quem transbordava euforia. No segundo seguinte, o que antes era prazer deu lugar à preocupação. O corte não era grave, mas foi o suficiente para tirar um pouco de sangue. Isso é coisa da sua cabeça, não têm como essas crianças doces fazerem algo assim. Como aconteceu de manhã, Bruno a ajudou a limpar o ferimento enquanto Jess terminava de arrumar a cozinha. Eles pediram desculpas diversas vezes, mas ela sempre respondia que acidentes acontecem. 
A babá estava com as mãos queimadas e um corte no braço. Aquilo era fantástico. Mesmo que nenhum dos ferimentos fosse grave, os gêmeos já sentiam o êxtase do prazer. Eles queriam mais. Queriam ver o desespero no olhar de Helen, queriam ver ela implorar. Talvez, se eles fossem mais velhos conseguiriam controlar os impulsos que começavam a bombardeá-los, mas eram apenas crianças. E crianças não sabem esperar. 
Como pedido de desculpas, tanto pela manhã quanto pelo almoço, o irmãos preparam uma limonada para ela. Eles até mesmo serviram em uma bandeja e levaram na sala, para que Helen não precisasse mexer muito as mãos e o braço feridos. Começaram a assistir um filme que passava na TV, mas ela começou a se sentir tonta. A TV estava girando, o teto e o chão haviam trocado de lugar e um sono irresistível estava tomando conta da mente e do corpo dela. 
- Está começando a fazer efeito, não está, minha irmã? - Não é possível, será que esses dois colocaram algo no suco? 
- O que vocês fizeram comigo? - tentou dizer, mas Helen já não soava mais como ela mesma. Sua voz estava trôpega e a fala embolada. 
Antes que ela cedesse ao sono causado pelo remédio em sua bebida, os gêmeos viram em seu olhar o lampejo da descoberta. Helen finalmente compreendeu que os acidentes não eram de todo acidentais, foram causados deliberadamente para machucá-la. Aquelas criança não eram os anjinhos que fingiam ser, aquilo não havia passado de uma farsa, ela era apenas um brinquedo para os dois. 

Helen foi lentamente recobrando a consciência. A primeira coisa que notou é que estava no chão da cozinha, completamente despida. O que esses dois fizeram comigo? Conforme tentava se levantar, começou a perceber diversos cortes e hematomas pelo corpo. Até mesmo mordidas nos seios e nos braços. Tentou gritar de horror diante daquela cena, mas aquilo apenas a fez sentir uma dor lancinante. Quando passou a mão pelos lábios percebeu que eles estavam presos com diversos grampos. Já praticamente fora de si, Helen tentou se colocar de pé, mas assim que apoiara seu peso em uma das pernas, desistiu. Eles haviam esmagado seus pés, ela não iria a lugar algum. Ela se sentiu completamente derrotada. Estava com diversas partes do corpo sangrando, o que restava de seus pés estava latejando em uma constante agonia e sua boca estava selada. 
Os gêmeos assistiram toda aquela cena. Por mais que ela tenha proporcionado o maior prazer da vida deles, estava na hora de encerrar aquilo. Durante toda a tarde eles brincaram com sua boneca humana que, mesmo não esboçando reações muito fortes devido a alta dosagem do remédio, ainda era melhor que animais do bosque. Eles sabiam que aquela experiência serviria como base para brincadeiras futuras. 
- Você foi um ótimo brinquedo, Helen - os dois falaram em uníssono, com aquele deleite sinistro em seus olhos. 
Já há algum tempo estava sentindo um cheiro metálico no ar, mas até ver que Jess segurava uma caixa de fósforo nas mãos, ela não tinha reconhecido o que era. 
- NÃOOOOOOO!!!! - dilacerando sua boca, Helen gritou diante da revelação do que aquele cheiro engraçado significava: gás. 

- Senhora Oliveira, aqui quem fala é o detetive Gomes. Aconteceu um acidente em sua casa, parece que houve um vazamento de gás. Seus filhos estão bem, com ferimentos leves, mas a babá estava no centro da explosão quando tudo começou.