29/10/2016

Os Condenados | Andrew Pyper

Fonte da Imagem: Bela Psicose
Um dos grandes mistérios da vida, responsável pela criação da maioria - senão de todas - as religiões, é o que acontece depois dela. Danny Orchard, com seus quarenta anos, conhece bem o alvoroço que é formado em torno de qualquer fonte de informação minimamente confiável sobre a questão: ele se tornou um escritor bem-sucedido ao escrever seu best-seller "O Depois", no qual conta sobre o que viu do outro lado em sua experiência de quase morte - bem, pelo menos em uma delas.
Diz-se que todos temos um dom - algumas pessoas se sentem mais inclinadas para as artes, outros entendem tudo de tecnologia... E há aqueles que possuem uma aptidão um pouco mais macabra: voltar à vida. Diferente das outras habilidades, esta pode ter um lado um tanto quanto ameaçador - afinal, nem sempre o Depois é agradável e ninguém sabe disso melhor que Danny.
Sua vida nem sempre foi assim, com uma agenda cheia de compromissos e pessoas que o admiram. Há vinte anos atrás, Danny não poderia imaginar que uma série de situações catastróficas renderiam, além de um status de celebridade, uma maldição - ser assombrado por sua irmã gêmea, Ashleigh.
"Era  a primeira vez que ela não me tinha ao seu lado. E era solitário onde Ash estava. Então minha irmã jurou tornar minha vida solitária também."

Ainda em vida, Ash encantava todos ao seu redor por meio de seu charme, inteligência e beleza. Era popular e desejada, aparentemente perfeita. Pelo menos, era isso o que a maioria das pessoas pensava. Apenas sua família sabia quem ela era realmente por baixo de todas aquelas máscaras: um ser cruel, egoísta e manipulador, incapaz de sentir qualquer coisa além de uma fria indiferença.
"Meu pai, minha mãe e eu sabíamos que um monstro vivia conosco, por mais fotogênico, por mais inteligente que fosse. E, como ela era apenas uma garota, como era alguém da família e como tínhamos medo dela, não havia nada que pudéssemos fazer"

Sem saber como lidar com tal situação, a família se degrada aos poucos: o pai passa a trabalhar cada vez mais para evitar voltar para casa, a mãe afoga seu desespero no álcool e Danny, sem ter para onde correr, vira o alvo preferido das maldades da irmã. Ele se torna um garoto recluso, tímido e comum, sem qualquer sinal do brilho que a irmã exala em público - o que faz com que as pessoas duvidem que eles possuam qualquer parentesco. Ash faz questão que Danny não crie laços, ameaçando todos que ousam se aproximar do irmão: ela o vê como uma propriedade, obrigado a estar sempre ao seu lado e a testemunhar alguns de seus atos terríveis.

Fonte da Imagem: Bela Psicose
Em seu aniversário de 16 anos, Danny e Ash são vítimas de um incêndio na Alfred Street que ninguém sabe como começou - existe a suspeita de que não tenha sido um mero acidente. No entanto, quando já tinham sido considerados mortos, o inesperado aconteceu: Danny voltou, contra todas as possibilidades, e trouxe consigo não apenas uma prova do Depois como também a alma atormentada da irmã - cujo objetivo em morte continua sendo o mesmo que em vida, destruir qualquer fagulha de felicidade do irmão.
"Não fiquei de luto por Ash, mas sentia sua ausência o tempo todo. Para mim parecia impossível que ela não estivesse mais lá, que pudesse fazer algo tão humano quanto morrer e nunca mais voltar. E era realmente impossível. Porque ela voltou."

E por muito anos ela conseguiu. Danny se manteve afastado do convívio social e de relacionamentos amorosos, cada vez mais introspectivo e solitário - até conhecer Willa e seu filho Eddie, que passam a correr grande perigo ao suscitar o ciúme doentio de sua irmã morta. Com sua nova família em risco, Danny parte em uma jornada em busca de uma maneira de enviar Ashleigh de volta para onde ela pertence e nunca mais voltar... Mas isso pode exigir mais sacrifícios do que ele esperava.
"É preciso ter uma razão para viver, e uma que seja boa, sei disso agora. Senão viver pode ser difícil pra cacete."

Os Condenados foi meu primeiro contato com a obra de Andrew Pyper, que causou grande discórdia com seu último livro publicado no Brasil pela DarkSide Books: O Demonologista conquistou alguns leitores e desagradou outros profundamente. Eu me encaixo no primeiro grupo, mas isto é assunto para outra postagem. O ponto é: muitos dizem que a estória de Danny foi a "rendenção" do autor, sua segunda chance - desta vez bem-sucedida. Este é o motivo pelo qual fico um tanto quanto confusa com a minha opinião a respeito da obra, o que dificultou em muito a escrita dessa resenha.

Fonte da Imagem: Bela Psicose
Acontece que Os Condenados me surpreendeu e me decepcionou na mesma medida. Em suas duas primeiras partes, fiquei completamente absorta pelo enredo e pela construção dos personagens: Pyper tem uma narrativa envolta por suspense e tensão que torna impossivel não querer saber mais - especialmente sobre Asheigh, sem sombra de dúvidas a personalidade mais complexa e bem trabalhada durante todo o livro. Quando pensamos que não pode ficar pior, Ash faz algo que não esperávamos que ela fosse capaz; e quando juramos não ser possível odiá-la mais... somos induzidos a sentir empatia por ela, lamentarmos pelo seu destino e pelas coisas que a levaram até ele.
Foi a partir da terceira parte da obra que o autor, de alguma forma, me perdeu. Não sei como aconteceu - se a narrativa simplesmente esfriou ou se foi devido a um semana mais apertada na faculdade. Tive a impressão de algo enrolado, de capítulos desnecessários e de um certo descaso com a evolução dos personagens. No entanto, como disse, não sei se posso efetivamente citar tal como um ponto negativo da obra - ou se essas coisas só foram percebidas devido à minha experiência particular de leitura. Por ter gostado tanto de O Demonologista, pretendo reler Os Condenados em breve - de preferência, em um momento de maior calmaria.

Fonte da Imagem: Bela Psicose
É uma obra recomendada para quem gosta de thrillers psicológicos, com pitadas generosas de terror - daqueles que nos fazem sentir um frio subir pela espinha. Mais do que um enrendo intrigante, a obra nos leva a uma reflexão sobre a própria natureza humana - somos intrinsecamente maus, nos tornamos ou algo nos obriga a ser assim?