26/12/2016

Alice + Alice | Lewis Carroll

Alice não poderia estar mais entediada naquela tarde ensolarada, sem nada para fazer além de observar sua irmã lendo. Quando ela avista um coelho nada comum - afinal, ela não tinha visto muitos coelhos de colete preocupados com a hora -, ela não hesita em correr atrás dele. Sem se preocupar com como irá voltar, Alice segue-o para dentro de uma toca muito muito muito profunda e um tanto quanto estranha, com móveis e utensílios nas paredes (não que ela estivesse estado em outras tocas antes, mas aquilo certamente parecia peculiar).
"Quando lia contos de fada, eu achava que aquele tipo de coisa nunca acontecia, mas agora... Eu tenho absoluta certeza de que deve existir um livro sobre mim."
Repentinamente, o coelho some de vista e Alice se vê em um lugar misterioso: um lugar onde você aumenta e diminui com tanta frequência que chega a ficar confusa com quem você é, um lugar onde os animais falam, são mandões e odeiam ter que responder perguntas - especialmente aquelas cujas respostas eles não sabem.
Alice se entrega à todas as estranhezas do País das Maravilhas - tudo por lá é tão incomum, que ela nem sequer se surpreende mais. Ela toma chá com um chapeleiro um tanto quanto maluco, ouve conselhos de um gato sorridente, descobre que mudanças nem sempre são ruins com uma sábia lagarta - e ainda joga toque-emboca com um Rainha de Copas mal-humorada, que responde a tudo aquilo que lhe dá desgosto com um sonoro "Cortem-lhe a cabeça!".
"- Nós somos todos loucos aqui."
E você acha que acabou por aí? Algum tempo depois, Alice passava uma tarde de inverno vendo sua gata Diná dar banho em uma de suas filhotinhas, enquanto a outra fazia uma grande bagunça. Depois de dar uma bronca severa em Kitty, ela passa a relatar os mistérios que guardava um grande espelho que refletia a sala onde estavam. O outro lado era muito parecido com o que ela já conhecia - com a única diferença de que tudo era invertido. Ansiosa por explorar aquele mundo além do que ela podia ver, Alice atravessa o espelho.

Uma vez imersa no mundo dos reflexos e envolvida em um jogo de xadrez cujas regras ela não conhece, Alice se depara com personagens fantásticos e experiências inesperadas: flores um tanto mal-educadas, lugares que só são alcançados se pelo caminho oposto, um cavaleiro que não sabe andar a cavalo, uma loja cujos produtos fogem dos clientes e um ser de gravata muito bonita (cuidado para não confundir com um cinto) que se assemelha muito a um ovo - mas não digam isso a ele!
"Ela, em geral, dava ótimos conselhos a si própria (embora raramente os seguisse). Às vezes, ralhava de modo tão duro consigo mesma que chegava a ficar com lágrimas nos olhos."
É difícil encontrar alguém que não conheça a história da garota que caiu em um buraco e encontrou coisas incríveis por lá. Eu conhecia e adorava Alice devido aos filmes de Tim Burton (nem cheguei a ver as animações da Disney) e às releituras de A.G. Howard, mas nunca tinha me dado o prazer da leitura - mais por falta de oportunidade do que de vontade. Pra ser bem sincera, até ganhar o box de presente de aniversário, eu nem mesmo sabia da existência de Alice Através do Espelho - que foi publicado seis anos após Alice no País das Maravilhas.


E eu devo admitir que não estava preparada para o nível de surrealismo que ia encontrar nas páginas escritas por Lewis Carroll. Eu sabia o que esperar, mas acho que não tem como - especialmente na primeira leitura - prever toda a ludicidade que você está prestes a vivenciar. Talvez esse seja o charme de Alice: te pegar desprevenido e fazer com que você se torne criança novamente.  O autor usa de figuras de linguagem, tais como metáforas e prosopopeias, para tornar um livro aparentemente infantil em uma leitura e tanto para adultos.
O autor critica a todo momento a "robotização" a que as crianças estava sendo submetidas na época: deviam se dedicar às tarefas escolares e seguir um padrão de comportamento. Carroll sentia que a infância estava, de certa forma, perdendo o seu encanto: e ele revive todo o fascínio do lúdico infantil em sua obra. Alice é uma criança que questiona, é curiosa e atrevida - e isso irrita a maioria dos personagens, que são autoritários e só querem que ela siga ordens (uma satirização genial das instituições governamentais, que podam o pensamento crítico). 
Por mais nonsense que tudo possa parecer à primeira vista, podemos tirar muitas lições de cada passagem do livro: aprendemos junto com Alice que, se acreditarmos em nós mesmo nada é impossível; que não importa quantas mudanças inesperadas aconteçam, sempre manteremos nossa essência. E, o mais importante de tudo, aprendemos a voltar a ver a vida pelos olhos ingênuos e puros de uma criança.

Vocês já leram Alice? O que acharam? Me contem nos comentários!