19/12/2016

Book2Movie | O Lar das Crianças Peculiares

Uma das maiores polêmicas no mundo literário são as adaptações feitas para o cinema. Sejamos racionais: não dá pra exigir que tudo seja exatamente igual. São duas plataformas diferentes, com possibilidade e limitações próprias. Porém, como leitor, dá um dorzinha no coração de ver alguns filmes que se dizem baseados em livros mas mudam completamente o enredo em que supostamente se basearam.
Comecei a ler há pouco tempo a trilogia das Crianças Peculiares e, assim que terminei o primeiro volume fui assistir o filme. Devo dizer que estou um pouco decepcionada com a fidelidade da adaptação - embora o filme não seja de todo ruim - e hoje eu vou mostrar para vocês as maiores diferenças entre as duas obras. Vem comigo!

Jacob na vida

No livro, Jacob odeia seu trabalho no SmartAid - e, inclusive, faz de tudo para ser despedido - e não tem nenhum amigo, fora Ricky. Já no filme, ele aparece se dedicando no serviço e sofrendo bullying dos outros estudantes da escola - sendo que no romance de Ramson Riggs, ele diz que era como se Jacob fosse invisível para todos.

Queria um amigo

Ricky - melhor e único amigo de Jacob - é substituído na adaptação pela sua gerente da loja. Fiquei pensando no por quê dessas mudanças feitas por Tim Burton e a única explicação plausível é que ele queria tornar a vida de Jacob ainda mais insossa do que ela já era - talvez deixá-lo solitário e infeliz, fosse fazer com que parecesse mais justificável a importância que a ilha e seus moradores adquiriram para ele em tão pouco tempo. Para ser sincera, achei bem desnecessário.

Dr. Golan?

O psiquiatra de Jacob é interpretado por uma mulher no filme. Nada contra, mas... por que?

100 páginas em 10 minutos

Ok, exagerei um pouco. Mas sinto que a parte introdutória do livro passou em um piscar de olhos no longa. Eu entendo que o tempo é limitado e tudo o mais - porém, senti que essa pressa foi prejudicial para o próprio andamento do enredo. Achei que a relação de Jacob com o avô foi muito mal trabalhada - e isso é um absurdo, visto que Abe era a pessoa mais importante na vida do protagonista.

A peculiaridade da mocinha

Na lista de mudanças sem sentido, essa está em segundo lugar (porque, acredite, tem algo pior). Emma, que no livro cria chamas com as suas mãos e tem um jeito meio atrevido de ser, passa a ter a habilidade de flutuar e controlar o ar. Parte dessa peculiaridade veio de outra personagem do livro, a pequena Olive, que apenas flutuava por aí sem controle se não estivesse bem amarrada ou com seus pesados sapatos. No filme, é Olive quem possui a peculiaridade das chamas - mas seus poderes foram bem diminuídos, visto que precisa utilizar uma luva de segurança a todo momento (e no livro, a Emma controla as chamas até debaixo da água!).
A explicação para essa mudança radical foi que isso tornava a personagem mais poética - e que cenas flutuantes eram mais românticas do que chamas. Só serviu para fazer uma grande confusão.

Personagens descaracterizados

Como se não bastasse o que fizeram com Emma, outros personagens são muito diferentes dos que encontramos nos livros. Eu nem vou mencionar as idades, porque ficaria um dia inteiro reclamando (a Olive devia ser uma criancinha e flutuar!!!). A srta Peregrine, por exemplo, é bastante formal no livro - já na adaptação, ela se torna obcecada pelo tempo, olhando seu relógio a cada segundo para controlar a rotina das crianças (ninguém merece). Ela continua forte e corajosa, mas senti falta da sobriedade da srta Peregrine de Ramson Riggs
Fiona, uma das crianças, tem seu visual selvagem completamente alterado - ela vira uma garotinha bem arrumada, que não combina nem um pouco com a sua peculiaridade.
E Enoch, ah pobre Enoch. Concordo que ele era meio pentelho no livro, mas Tim Burton o tornou algo como um "inimigo" de Jacob por um motivo um tanto quanto infantil e pouco original - o fato é que: ele dá uma baita preguiça no longa.

Modus-operandi dos etéreos

No livro, os etéreos são seres medonhos que destroçam suas vítimas até ser difícil reconhecê-las. No longa, eles continuam sendo medonhos - embora não tenham lá muita criatividade na hora de escolher o visual hehe -, mas se alimentam apenas dos olhos dos pobres coitados que eles alcançam. Dieta peculiar, não é mesmo? (alerta de piadinha infame)

3 anos no futuro

Por algum motivo, que só Tim Burton sabe, a fenda da senhorita Peregrine foi feita em 3 de setembro de 1943 - 3 anos depois da data que Ramson Riggs estipulou. O diretor provavelmente pensou que serviria de um pano de fundo melhor para a história mas, mesmo pesquisando um pouco, não consegui entender exatamente o motivo.

Os misteriosos gêmeos

Muito utilizados pelo marketing do livro, os gêmeos são personagens completamente secundários na trama -  o que é uma pena, pois seriam personagens muito interessantes para serem trabalhados. Felizmente, Tim Burton concorda comigo: o diretor deu vida aos gêmeos de uma forma surpreendente - e embora eu costume ser contra alterações muito radicais nos enredos das adaptações, essa caiu como uma luva e ficou incrível.

"Perdi meu exemplar do livro"

Essa para mim, é a única explicação para o que aconteceu com a trama do filme. Devo dizer que, mesmo com tantas mudanças sem sentido e desnecessárias, até a metade estava sendo um bom filme. Porém, do meio para o fim, o filme praticamente deixa de ser uma adaptação do livro. Simples assim. O enredo muda completamente, e eu não faço nem ideia de como vão ser as sequências - se é que elas vão existir. Não vou dar spoiler - embora eu esteja me coçando para falar - mas, sinceramente! Errou feio, errou rude.

No final das contas, O Lar das Crianças Peculiares é um bom filme. Possui boas doses de aventura, de comédia e uma leve aura sombria - não poderíamos esperar nada diferente do Tim Burton, não é mesmo? -, só não é um bom filme para os admiradores do livro que queriam assistir àquela história nas telonas. 

Vocês já assistiram o filme? Leram o livro? Têm mais alguma diferença interessante que poderia estar aqui? Me contem nos comentários!