21/12/2016

Dois Rios | T. Greenwood

Sabe aquele livro que está na sua estante há tanto tempo que você mal se lembra da existência dele ali? E que, quando lembra, dá uma olhada na capa e acha que não vai fazer o seu estilo de leitura - e logo o deixa de lado por algo que pareça mais agradável? Era assim que eu me sentia a respeito de Dois Rios: a capa não me atraía e a sinopse não me instigava a querer descobrir mais. 
Até que, em um dia em que não conseguia escolher minha próxima leitura para relaxar, resolvi deixar o destino (ou o acaso) tomar essa decisão por mim. Em um processo um tanto quanto bobo, apontei para um livro aleatoriamente de olhos fechados e calhou de ser esta obra. Admito que, a princípio, quis roubar no meu próprio jogo - mas, por sorte, acabei seguindo as regras.
E foi assim que eu conheci Harper Montgomery, às vésperas do aniversário de 12 anos de Shelly, atormentado por fantasmas do passado. A morte repentina de Betsy transformou o jovem perdidamente apaixonado em um homem ofuscado pela tristeza - não apenas devido à perda, mas também por um erro terrível que cometeu no auge da raiva irracional. Um ato cujo peso ele carrega a cada dia na consciência e que permeia todos os seus pesadelos - um remorso imenso por algo abominável e injustificável.
"As pessoas dizem que nos definimos por nossas escolhas; algumas delas são fáceis, breves, enquanto outras são mais difíceis. (...) Mas e a escolha que se faz em uma fração de segundo? E aquela que se faz sem o luxo da contemplação, aquela que se faz pela intuição em vez da razão? Ela fala mais alto para quem realmente somos?" página 15
O descarrilhamento de um trem na pequena cidade de Dois Rios pode trazer à tona tudo aquilo que Harper quer esquecer - e carrega consigo o potencial para sua redenção. Uma das jovens passageiras do trem, negra e grávida, diz não ter para onde ir e implora por um abrigo temporário. A situação, de certa forma, se assemelha àquela terrível cena que presenciou doze anos atrás, e ele não é capaz de virar as costas outra vez.
Marguerite torna-se amiga de Shelly e, embora não seja muito mais velha do que a garota, passa a perceber as necessidades de pai e filha - mesmo as que nem eles sabiam - e a cuidar deles. A convivência com Maggie, porém, levanta suspeitas em Harper: ele nada sabe sobre a garota e ela nada revela - será que sua inesperada visita poderia ter alguma relação com o acontecimento que tanto o perturba?
"- Você vê, as coisas que nos apavoram, as coisas que nos assustam, são, às vezes, as melhores coisas para nós." página 182
Por meio de duas narrativas intercaladas, conhecemos mais profundamente os dois lados de Harper Montgomery: o homem cuja vida parece ser toda em tons de cinza até o momento em que Maggie aparece e o jovem que dedicou uma vida inteira a amar Betsy, sua melhor amiga. Embora o livro apresente um ritmo lento, o leitor é instigado exatamente pela alternância entre o passado e presente: os capítulos, em primeira pessoa, são escritos de uma forma em que você está sempre ansioso pelo próximo, e a imagem que lentamente formamos das experiências de vida de Harper faz com que possamos compreender melhor os motivos para ser quem ele é agora.
T. Greenwood traz um drama romântico com personagens reais, que possuem defeitos e erros, com os quais podemos nos identificar. Um dos aspectos mais marcantes para mim foi, de fato, o quanto as personagens femininas eram fortes e tomavam a cena sempre que estavam presentes. Betsy, Maggie e a sra. Montgomery (mãe de Harper) têm - cada uma à sua própria maneira - personalidades impactantes e ideais que perseguem com toda a convicção.
"- Prometa - ela disse.
E como a amava mais do que os infinitos pastos e os densos matagais e a luz do sol, como a amava mais do que a neve, sussurrei:
- Prometo." página 246
É, inclusive, por meio destas personagens que a autora traz à discussão temas polêmicos e, infelizmente, atuais como racismo, guerra e estupro. O impressionante é a forma como a autora trouxe essas questões para a narrativa: ela não apenas colocou sua posição no livro, mas criou personagens que expressam sua opiniões conflitantes e consequências para aqueles que ousavam pensar diferente da maioria. Isso fez com que a discussão dos temas não ficasse monótona e fosse um quadro real dos muitos tipos de preconceitos e violências a que somos impostos.
Dois Rios é muito mais do que uma história de amor. Tampouco é um simples mistério. É uma trama sobre perdoar aos outros e a si mesmo. É a história do que pode acontecer quando um rio encontra o outro - e,acredite, são inúmeras possibilidades.
"- Quando estou com você, estou em casa. Vindo aqui, estando com você. Esta é a minha casa." página 230