01/12/2016

O Demonologista | Andrew Pyper


Você acredita em demônios? O que são demônios? Algumas pessoas dirão que são seres cuja essência é pura maldade, tendo a existência motivada por espalhar o caos no mundo. Outras, certamente mais céticas, podem dizer que demônios nada mais são do que a própria malevolência humana, conflitos que mantemos trancafiados bem no fundo do nosso subconsciente - mas que às vezes conseguem escapar.
David Ullman, um renomado professor universitário de mitologia cristã, deve sua carreira bem sucedida à dedicação de toda uma vida ao estudo e interpretação do mais famoso poema de John Milton, "O Paraíso Perdido". Não significa, porém, que ele concorde com a ideia de seres perversos desviando as pessoas de seu bom caminho - David, um dos maiores conhecedores da história bíblica judaico-cristã, não acredita em nada daquilo que leciona diariamente há anos.
"Tem sido uma maneira engraçada (os devotos podem até chamar de hipócrita) de ganhar a vida: passei minha carreira dando aulas sobre coisas nas quais não acredito. Um ateu estudioso da Bíblia. Um especialista em demônios que acredita que o mal é uma invenção humana."
Algo que quase ninguém sabe é que, a despeito de estar profissionalmente em seu auge, David sofre com a companhia constante daquilo que ele chama melancolia. Uma sombra negra que está presente aonde quer que ele vá, independente do que ele faça: tal situação acabou por fazer com que David se afastasse de sua esposa e filha, tornando-se cada vez mais ausente do convívio familiar. A única pessoa que parece ser capaz de lidar com o peso que o professor carrega é sua amiga e confidente O'Brien, professora de Psicologia na mesma faculdade que Ullman.
As preocupações com a traição da esposa, Diane, o provável divórcio que se aproxima e a dificuldade em se comunicar com Tess, a filha pré-adolescente, se tornarão insignificantes com os acontecimentos que esperam David Ullman. Tudo começa com a inesperada visita de uma misteriosa mulher magra - que tudo sabe sobre ele e nada revela a seu respeito - com uma suspeita proposta: um caso que apenas ele pode investigar, devido a seus extensos conhecimentos teóricos em demonologia.
"Sua perícia é necessária para ajudar o meu cliente a entender um caso em andamento que seja do completo interesse dele. É por isso que estou aqui. Para convidar você, como consultor, para fornecer sua avaliação e observações profissionais, o que quer que você considere relevante para melhorar nossa compreensão do...” Ela se interrompe, parecendo procurar uma lista de palavras possíveis em sua mente, finalmente decidindo-se pela melhor de uma seleção inadequada. "Do fenômeno."
Não é o tipo de trabalho que David aceitaria, afinal, não conseguira arrancar nenhuma informação da mulher magra: ela só lhe dera um endereço, passagens para Veneza e a garantia de uma grande quantidade de dinheiro. Não foi pelo aspecto financeiro, contudo, que o professor embarcou em um avião com Tess - foi pela necessidade de fugir, nem que por um momento, de sua realidade; pela oportunidade de, finalmente, se reconectar com sua filha.
O que o professor não desconfiava era que este caso exigiria muito mais dele do que apenas seu conhecimento teórico... Em pouco tempo, ele percebe que aquela viagem foi um erro: além de presenciar uma situação perturbadora e racionalmente inexplicável, Tess desaparece - ou pelo menos é nisso que a maioria das pessoas acredita. David parte em uma peregrinação em busca de sinais, enquanto testemunha e compila provas da existência do próprio Inominável.
“Às vezes, os monstros são reais”, disse Tess, virando de lado e me deixando sozinho com a joaninha me encarando. “Mesmo se eles não se parecerem com monstros.”
O Demonologista foi o primeiro livro de Andrew Pyper publicado no Brasil - para nossa sorte, pelas competentes mãos da DarkSide Books que, como sempre, nos presenteou com uma edição digna de lugar de honra na estante de qualquer leitor. A obra venceu o prêmio Melhor Romance do International Thriller Writters Award (2014) e foi recomendada por grandes nomes do suspense e terror, como Gillian Flynn e Stephen King.
Li esse livro sem grandes expectativas. Afinal, as opiniões sobre O Demonologista no Skoob são muito divergentes - há quem tenha amado e quem tenha odiado - e minha experiência com Os Condenados não foi a melhor possível. Creio que isso contribuiu para minha surpresa e satisfação ao acompanhar o enredo desta obra de Andrew Pyper.

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Logo nos primeiros capítulos, o autor nos envolve na trama de uma forma que não há mais escapatória: somos tomados de bote por um thriller psicológico envolto por terror, e nossa única alternativa é continuar a leitura - e rezar para que os demônios nos poupem. Não esperem, contudo, uma obra marcada por contínuas cenas sangrentas e assustadoras: o medo de Pyper é construído por meio de tensão e suspense (mas tenha certeza que existem cenas aterrorizantes que vão tirar sua noite de sono).
O mais interessante em O Demonologista, na minha singela opinião, são as possibilidades de interpretações que ele oferece. Não apenas devido ao final aberto - que, por sinal, foi muito criticado pelos leitores -, mas também toda a jornada de David pode ser vista como puramente espiritual. Não entendeu? Eu explico. É como se tudo o que acontecesse no livro - o desaparecimento de Tess, os negócios que o Inominável tem para com Ullman - fossem metáforas para que o professor lidasse com a perda da filha e a mudança nas suas crenças. Uma forma de lidar com o seu trauma e aceitar melhor toda aquela situação. Dessa forma, o enredo trataria não de demônios sobrenaturais, mas daqueles do cotidiano: nossos conflitos internos, a fé, as doenças... Que loucura, né?
"Fé cega. Ainda que, no meu caso, não no céu, mas naqueles em guerra com ele."