06/01/2017

Morte e Vida de Charlie St. Cloud | Ben Sherwood

Às vezes, a vida nos reserva coisas que não somos capazes de explicar - como a morte que se apresenta cedo demais ou um futuro brilhante sendo consumido pelas garras cruéis da culpa, e até mesmo nos casos em que um desafio inocente ao destino acaba mal. Por mais que certas situações pareçam ser injustas (e, devo admitir, algumas são), a vida aparenta ter um plano maior do que nossas singelas existências. É preciso acreditar que ela sabe o que faz.

Charlie St. Cloud era apenas um garoto quando observou o rumo de sua vida mudar drasticamente. Seria uma noite como qualquer outra - a mãe trabalharia até tarde e ele jogaria beisebol com seu irmão, Sam -, se Charlie não tivesse planejado uma travessura grandiosa: os irmãos sairiam escondidos para ver o jogo de seu time favorito, os Red Sox. 
De fato, tudo correu bem. Nenhum policial avistou o carro guiado por um garoto menor de idade, ninguém os impediu de entrar no estádio, o jogo fora emocionante - e aquele era o melhor dia da vida de ambos. No entanto, na volta para casa, um único momento de distração mudaria tudo: os garotos se envolvem em um acidente, e Sam não sai dele com vida.

"De todas as decisões impensadas naquela noite, esta com certeza foi a pior de todas. Charlie tentava ultrapassar a lua e, no último segundo, ele viu a imagem perfeita da felicidade. O rosto inocente de Sam olhando para ele."

Por um milagre, um bombeiro conseguiu ressuscitar Charlie. Mas, por mais que seu corpo estivesse funcionando, ele também morreu naquele dia. Sua vida estagnou pela última promessa que ele fez ao irmão, naquele tempo em que ficaram suspensos no espaço entre o mundo dos vivos e dos mortos: eles sempre ficariam juntos.

Anos mais tarde, Charlie ainda cumpre sua promessa. Trabalhando como coveiro no cemitério em que Sam foi enterrado, ele presencia um grande milagre, todos os dias, durante o pôr do sol: seu irmão Sam aparece no bosque, exatamente como Charlie se lembrava dele, para jogarem beisebol. O fantasma de Sam não tinha feito a passagem, porque ele não suportava a ideia de ir sem seu irmão mais velho
É nesse mesmo cemitério que Charlie vai conhecer Tess por puro capricho do destino - como eu disse, nem sempre entendemos os seus planos. Ela é uma mulher forte e decidida, que corre atrás dos seus sonhos: no caso, velejar, para bem longe, até onde o vento a quiser levar. E é essa relação que tem o potencial de libertar Charlie da rotina que o sufoca, preso a uma promessa que talvez ele não seja mais capaz de cumprir. Afinal, por algum motivo ele recebera uma segunda chance... seria certo desperdiçá-la não vivendo?


Florio, o bombeiro que miraculosamente salvou Charlie do acidente, é quem narra a história dos irmãos e como a participação ativa dele é mínima, acompanhamos toda a trama por uma perspectiva de terceira pessoa. A narrativa, embora seja bem fluida, é também muito parada: são poucos os acontecimentos que conseguem instigar o leitor a ler "só mais um capítulo" na madrugada. O maior trunfo do enredo é, certamente, os personagens principais. Charlie, Sam e Tess são muito bem construídos e cativam o leitor com suas qualidades e defeitos, de forma que nos vemos dispostos a ler mais algumas páginas de nada acontecendo só para saber o que a vida fará com eles.
Por outro lado, eu senti que em certo ponto da narrativa o autor se perdeu em seu objetivo: o que parecia ser uma jornada de auto descoberta, de espiritualidade e questões existenciais, se tornou um romance impossível - e o foco demora a volta para seu eixo. Isso quase me fez deixar o livro de lado algumas vezes, especialmente porque o romance entre Charlie e Tess não me pareceu nenhum um pouco palpável e crível: em um piscar de olhos eles se viram atraídos, em outro piscar de olhos estavam apaixonados e dispostos a mudar toda a sua existência um pelo outro. Não comprei.
Morte e Vida de Charlie St Cloud é um bom livro, e não passa muito disso. Uma boa leitura sobre segundas chances e a importância de ter carinho pelo passado - mas não perder todo o seu futuro por ele. Uma leitura reconfortante para quem perdeu alguém que amava: por mostrar um agradável além-morte pode trazer paz e momentos emocionantes.

"Uma folha, uma estrela, uma canção, um riso. Perceba as pequenas coisas, porque alguém está estendendo a mão para você. Qualcuno ti ama. Alguém o ama."


Vocês já leram esse livro? O que acharam? Também tem um filme dele, o que pensam de eu fazer outro Book2Movie? Me contem nos comentários!