21/04/2017

#13RW: Fita 7, Lado A

Oi, você já ouviu falar de Hannah? Hannah Baker? Não ajuste seu... o que quer que esteja usando para ler isso. Somos treze blogueiros, ao vivo e em texto. Sem promessas de ser uma postagem fácil, sem spoilers e, desta vez, pode conter alguns gatilhos. Pegue um lanche. Fique confortável. Porque vamos contar as lições que tiramos da vida de Hanna - ou, mais especificamente, do fim dela. Se você está lendo essa postagem, continue...

Eu ouso dizer que você sabe como é estar perdido. Vazio. Que conhece o estranho estado de não sentir nada, de não se importar com nada. Chame de depressão ou de falta de fé: isso é real. Eu já passei por isso. Você pode estar passando por isso. Aquele conhecido que do nada se tornou tão distante? Talvez ele esteja vivenciando isso neste momento, enquanto você lê minhas palavras. Já parou pra pensar nisso? Já te passou pela cabeça que grande parte do seu círculo social pode estar considerando, a cada segundo, a possibilidade de tirar sua própria vida?
S-U-I-C-Í-D-I-O. Um ato cada vez mais frequente e cada vez mais varrido para debaixo dos panos. Seja sincero, antes do boom de 13 Reasons Why você ouvia falar de suicídio? Você via tantas campanhas de conscientização espalhadas por todas as redes sociais? A resposta é não. Mas o fato é que a sociedade está reagindo exatamente da mesma forma que a escola de Hannah reagiu: cola-se uns cartazes aqui e outros ali, oferta-se ajuda a quem quer que esteja precisando e, depois de um tempo, simplesmente fingiremos que nada aconteceu.
Bem, eu não quero mais fingir. Não quero mais fazer parecer que está tudo bem quando alguém diz que "o suicídio é o ato mais egoísta de todos" ou que as pessoas fazem isso "para chamar atenção". E, se você que está lendo concorda com essas frases, só te peço uma coisa: pense que entre as pessoas que podem ouvir o que você está falando pode ter uma que sentou no parapeito da janela ontem. Ou alguém que, todas as vezes que atravessa uma rua, imagina quão fácil seria se simplesmente fosse atropelada. Reflita sobre as consequências que essas palavras cruéis podem ter na vida de alguém porque, adivinha, isso não vai fazer a pessoa se sentir melhor.
Uma das maiores críticas que vi contra a série foi referente à cena explícita do suicídio de Hannah, que vai contra as recomendações da OMS (Organização Mundial de Saúde), pois pode causar um fenômeno conhecido como efeito Werther - quando um suicídio pode inspirar uma pessoa fragilizada a também cometer o ato. Por um lado, eu compreendo o posicionamento colocado; por outro, eu discordo completamente com essa forma de lidar com o suicídio e o meu motivo pra isso é até bem simples: se nós não falamos de suicídio e de depressão, se tornarmos esses assuntos um tabu, as pessoas que estão passando por essa situação não se sentem confortáveis para desabafar. Vocês entendem como isso é uma cadeia de ações preocupante?
Outro aspecto que acho essencial comentar é o seguinte: ninguém é culpado pelo suicídio de alguém. Sério, ninguém merece viver com esse peso nas costas. Não julguem os personagens das fitas como os grandes vilões (embora alguns definitivamente sejam), porque no fim das contas eles são apenas gente como a gente. A lição que temos que tirar dessa produção é exatamente a de que pequenos atos podem machucar terrivelmente alguém. Lembrem-se de ser gentis sempre, mesmo que você esteja passando por uma barra terrível, porque você não sabe com o que a outra pessoa também está tendo que lidar. Cada um conhece a sua dor, e não é justo menosprezá-la.
Eu queria terminar essa postagem com um desabafo. Algo que carrego no peito a tanto tempo, que vai me sufocar se eu não disser. Espero que me perdoem caso seja algo pesado demais - e sério, não vou ficar chateada se quiser finalizar sua leitura por aqui.

Eu sou uma Hannah. 

Eu sou a pessoa que senta no parapeito da janela. Eu sou a pessoa que imagina a simplicidade de um atropelamento. Eu sou a pessoa que, ultimamente, tem fixa em sua mente a imagem de apontar uma arma para sua própria cabeça. E essa imagem não vai embora. Ela se infiltra nos momentos mais inesperados, para me lembrar que eu nunca vou ter uma vida normal - serei sempre assombrada pelo fantasma do que poderia ter sido evitado se eu não tivesse falhado a cada tentativa de me suicidar. E eu não vou dizer para você que estou bem agora. A única diferençá é que eu tenho alguém com quem conversar a respeito, alguém que se importa o suficiente para fazer valer a pena pelo menos tentar ficar.
Eu não falo sobre isso, porque não é algo que as pessoas querem saber. São incontáveis as pessoas do meu convívio diário que só vão descobrir a minha história lendo esse texto. Afinal, a sociedade prefere que você coloque uma máscara de felicidade sobre seu rosto do que ter que lidar com os seus problemas: nós precisamos parar de excluir as pessoas que mais precisam de apoio. É necessário que mudemos nossa atitude de virar as costas quando alguém ousa tirar a máscara e mostrar sua face verdadeira...

Eu estou sem a minha. E você?


Confira as outras postagens dessa blogagem coletiva:

Aviso importante: essas postagens podem conter spoilers.