14/04/2017

A Bela e a Fera: amor ou relacionamento abusivo?

Era bem natural, sendo uma leitora voraz desde bem nova, que minha princesa favorita fosse a insaciável Bela. Não assisti nenhum outro filme tantas vezes quanto a animação de 1991, minha infância foi marcada pela personagem altruísta, corajosa e independente que Bela mostrou ser.
Ao ser anunciado que Emma Watson viveria a personagem no live-action, claro que o resultado não poderia ser outro: fiquei super ansiosa pela produção e criei expectativas absurdas em relação ao filme (que foram atendidas, por sinal, mas o foco da postagem é outro). Hoje eu queria propor uma reflexão a respeito do relacionamento representado no filme, fazendo um paralelo com a vida real - porque, afinal, a vida imita a arte.

Inicialmente, somos apresentados a um príncipe excêntrico, cuja maior ocupação na vida era massagear o próprio ego dando festas de proporções inimagináveis apenas para esbanjar as suas riquezas. Egoísta e preconceituoso, ele foi amaldiçoado - junto com todos os servos do castelo - ao negar abrigo para uma velhinha, por ela não se "encaixar" naquele ambiente. Condenado a viver como Fera até que alguém aprendesse a amá-lo verdadeiramente, ele afasta todos de si e acumula uma ira incontrolável em seu interior.
Vamos adiantar até a parte em que Bela, num ato de estúpida coragem, toma o lugar de seu pai no encarceramento imposto pela Fera. Daí em diante, percebo vários elementos problemáticos em como o relacionamento entre eles se desenvolve: agressividade, gritaria e ordens são alguns deles. Não sabe bem o que é um relacionamento abusivo? Eu explico: é qualquer relação em que um se porta de forma autoritária em relação ao outro, agredindo física, verbal ou psicologicamente o companheiro.
Só que, diferente do que acontece na vida real, a Fera muda de um dia para o outro: se torna gentil, companheiro e cada vez mais carinhoso. As pessoas mudam, sim, mas essa mudança nunca é fácil - e você não deve se sujeitar a tanto sofrimento para fazer alguém ser seu par ideal. Existem tantas pessoas por aí que, sério, você não precisa passar por isso.
Tomei como referência de relacionamento perfeito aquele no qual eu não desistiria do meu parceiro, independente de todas as dificuldades decorrentes de amá-lo - na esperança de, no final, ele se tornar um príncipe. E eu tenho certeza de que muitas outras pessoas cometeram o mesmo erro. Lá vai um spoiler: ele não vai. Acontece que aquele romance que fica lindo e emocionante nas telonas, na vida real é tóxico - e acontece com mais frequência do que podemos imaginar.
Vemos todos os dias nas redes sociais notícias de mulheres que foram agredidas por seus parceiros - e, embora o relacionamento abusivo também possa acontecer no sentido contrário, é muito mais comum que a mulher seja a vítima. E ei, nem precisa chegar a níveis tão drásticos: pequenos atos também demonstram o quanto um indivíduo sente que tem posse sobre o outro.
É importante destacar que a vítima não percebe o que está acontecendo, mesmo que diversas pessoas a aconselhem a sair da relação. Isso acontece porque o abusador acaba por fazer com que a vítima se sinta de alguma forma culpada por ter causado aquela situação, dizendo que ela o fez perder a cabeça. Relacionamentos abusivos destroem a autoestima e autoconfiança das vítimas, o que só contribui para que elas se sintam ainda mais dependentes de seus parceiros porque, afinal, quem mais poderia amá-las?
O tema é muito complexo, muito polêmico e muito difícil - tanto para quem vive quanto para quem convive. Vou deixar para vocês algumas matérias que podem ajudar, tanto a ter forças para sair dessa situação se for o seu caso quanto para ajudar aquela pessoa querida que você sabe que está sofrendo: