19/04/2017

Dia 3 | Carta aos meus pais

Esta postagem é parte do projeto 30 Days Letter Challenge, para saber mais e ler outras cartas clique aqui.


Oi, mãe. 

Sei que a senhora vai ler essa carta primeiro, porque o papai provavelmente está ocupado com outra coisa - e não sendo contas a pagar, provavelmente o envelope vai passar despercebido. Estou escrevendo para dizer, ao mesmo tempo, que espero que me perdoem e que eu os perdoo. 
E pode ficar tranquila: a escolha de mostrar essas palavras para ele é completamente sua. Se quiser, pode guardar só para você - a senhora sempre soube melhor do que eu o que era melhor manter em segredo.
Mãe. Pai. Sinto muito por ter nascido. Sei que essa frase soou melodramática, mas eu juro que não tem um pingo de auto-piedade aí: o sentimento é sincero. Me dói pensar quão jovens vocês eram e em todos os planos que tiveram de ser cancelados porque eu surgi subitamente na vida de vocês. 
Eu tenho, hoje, quase a mesma idade que a senhora tinha, mãe - e nossa, não consigo nem imaginar quão trágico seria agora para os meus sonhos se eu carregasse um ser humano dentro de mim. Vocês desistiram praticamente de vocês mesmos... para me dar uma chance. E eu sinto, sinceramente, que os decepcionei. Não consigo ser quem vocês pensaram que eu seria - não consigo ser a pessoa pela qual vocês abriram mão de tanta coisa. 
Eu sei que vocês vão negar, mas isso é uma verdade contra a qual não existem argumentos: afinal, as pessoas se decepcionam todos os dias o tempo todo. Vocês não são obrigados a sentir orgulho de quem eu me tornei, assim como não há nada que me proíba de carregar constantemente no meu coração um ressentimento em relação àqueles que deram a vida por mim - por mais que esta pareça ser a atitude mais egoísta de todas.
Porque expectativas machucam: tanto a quem as nutre quanto a quem é alvo delas. Em todos os momentos da minha vida, me senti como uma sombra da pessoa ideal que eu deveria ser e isso teve (e ainda tem) consequências profundas na forma como eu vejo o mundo e a mim mesma. Não importa o que eu faça, não importa a conquista que eu alcance: eu sempre vou me sentir inferior - à tudo e a todos. 
E sabe, tá tudo bem. Eu os perdoo. E espero que você consigam fazer o mesmo por mim.

Com todo o amor do mundo,
Sua filha