18/06/2017

Em águas sombrias | Paula Hawkins

Para todas as encrenqueiras

A curiosidade pode ser fatal. Por vezes, mergulhar em questões profundas é arriscado visto que a superfície pode ser enganosa... nunca se sabe o que espera no fundo, nem o que (ou quem) está à espreita. Cuidado para não se afogar.
Livro Em Águas Sombrias

Parece justo, de certa forma, que Nel Abbott tenha morrido no Poço dos Afogamentos: o lugar que inspirava tanto fascínio sobre a escritora parece ter exercido, finalmente, uma atração grande demais para resistir... e ela se jogou. Ou, pelo menos, é o que dizem por aí. Não há um consenso sobre essa informação visto que sendo mãe de uma adolescente, muito bem sucedida na carreira (obrigada) e sem qualquer sinal de depressão, a motivação para um suicídio fica bem pouco aparente.

"O rio pode voltar ao passado, trazer coisas à tona e cuspi-las na margem diante dos olhos de todos, mas as pessoas não podem. As mulheres não podem. Quando você começa a fazer perguntas (...) não está atrás de respostas, está atrás de problemas." (p.95-96)


Por outro lado, estava claro que suas perguntas vinham incomodando alguns dos moradores da pequena cidade de Beckford. Seu mais novo projeto, um livro reunindo informações sobre as inúmeras mulheres que encontraram o seu fim naquela parte do rio, estava começando fazer surgir dúvidas que algumas pessoas preferiam que continuassem enterradas. Suicídio ou assassinato...? Nel carregava consigo uma angústia desconhecida ou foi calada para manter as aparências de uma pacata cidadezinha da Inglaterra? Todos guardam segredos...
Livro Em Águas Sombrias

 ... e alguns são capazes de arrastar você para o fundo

Surpreendida com a notícia da morte da irmã, Jules se vê obrigada a voltar para a cidade que carrega tantas lembranças difíceis de seu passado para cuidar de sua sobrinha - e embora as irmãs mal se falassem há anos, ela tem a certeza de que Nel nunca tiraria a própria vida. Através de memórias e de novas descobertas, forma-se um retrato nu e cru de uma personagem que, mesmo morta, está infinitamente presente a cada momento da trama. Tal qual o rio.

"Se falhei com você, preciso saber como. Posso não ter amado você, mas não tolero a ideia de vê-la abandonada dessa forma, descartada. Quero saber se alguém lhe fez mal e por quê; quero que paguem por isso." (p.86)


Vou ser sincera e admitir de uma vez: eu não sei bem o que pensar de Em Águas Sombrias. Vale dizer que não li A Garota no Trem, primeira obra de Paula Hawkins, então essa resenha não terá nenhum comparativo entre as duas obras da autora. Vou começar falando um pouco sobre os pontos que considerei negativos e, depois, falarei sobre aspectos do livro que fizeram com que minha opinião acabasse por ficar um tanto quanto confusa.
Livro Em Águas Sombrias

Quem é você mesmo?

Muitos autores fazem do recurso de variados pontos de vista para alcançar diferentes fins: seja tornar a narrativa mais misteriosa ou proporcionar ao leitor uma visão mais ampla do desenrolar da história, é uma estratégia que bem-utilizada torna o desenvolvimento da trama mais dinâmico e fluido. Por que estou dizendo tudo isso? Bem. Durante a narrativa de Em Águas Sombrias nos deparamos com quatorze (sim, você leu direito, quatorze) perspectivas diferentes em um volume de mais ou menos 350 páginas - entre elas, a de uma criança e de uma mulher morta que pouco acrescentam à narrativa. 

"Há quem diga que essas mulheres deixaram algo de si na água, outros, que a água retém parte do poder de cada uma, pois desde então tem atraído para suas margens as desventuradas, as desesperadas, as infelizes, as perdidas. Elas vêm aqui para nadar com suas irmãs." (p.44)


É estranho dizer isso porque eu gosto muito de livros que apresentem diferentes pontos de vista, especialmente quando se trata de suspense e mistério, mas a forma como Paula Hawkins fez isso não funcionou para mim. Já para lá da metade do livro eu ainda tinha que folhear os primeiros capítulos para descobrir quem diabos era a pessoa que narraria o próximo trecho e sua importância para a história - isso porque poucos personagens foram, de fato, bem construídos. Digo isso porque eu sentia que todos os capítulos, mesmo de diferentes personagens, tinham o mesmo tom, a mesma vibe, sabe? Mesmo que Hawkins tenha tentado fazer personagens humanos - com qualidade e defeitos, erros e acertos -, só consegui me conectar verdadeiramente com Jules (e um pouco com Lena, filha de Nel).

Não era você que eu esperava...

Se por um lado eu achei os personagens construídos de menos, por outro achei o mistério elaborado demais. Paula Hawkins dá voltas e mais voltas com seus personagens, passando inclusive por vias do sobrenatural... e o final é completamente frustrante. Uma das coisas que me deixou chateada com a resolução do caso foi justamente o desperdício de toda a aura sombria que a autora construiu para a cidade, para o rio, para os supostos suicídios. Paula me fez acreditar em fantasmas e depois os jogou do penhasco.
Livro Em Águas Sombrias

... mas estou feliz por ter vindo

Se eu fosse considerar apenas os aspectos que pontuei acima, seria uma obra que eu definitivamente não recomendaria para leitura. No entanto, depois de muito pensar no que diria nesta resenha, percebi que Paula Hawkins merece crédito por outros pontos que alcançou com sucesso em seu livro - e que, se não compensam, pelo menos balanceiam os lados negativos. As palavras-chave são: representatividade feminina, culpabilização da vítima, pedofilia e impunidade na violência doméstica. Não darei detalhes sobre como a autora trabalha cada uma dessas questões, a fim de evitar os indesejados spoilers, mas posso dizer que são sutilmente abordados durante a narrativa e trazidos à tona para reflexão. A originalidade da trama combinada com a escrita envolvente da autora e questões polêmicas atuais, fazem com que Em Águas Sombrias seja uma obra a qual vale a pena dar uma chance - porém ciente da possibilidade de se afogar.


"Ninguém gostava de pensar que a água daquele rio era infectada com o sangue e a bile de mulheres perseguidas, de mulheres infelizes; eles a bebiam todos os dias." (p.24)


Título: Em Águas Sombrias | Autor: Paula Hawkins | Editora: Record | Páginas: 364 | Skoob

Bom

Vocês já leram esse livro ou A Garota no Trem? O que vocês acharam? Leriam Em Águas Sombrias? Me contem nos comentários!

Obra recebida como cortesia do Grupo Editorial Record. Isso não afeta a honestidade da minha opinião!