11/06/2017

O Casal que Mora ao Lado | Shari Lapena

as pessoas são capazes de qualquer coisa

O tempo inteiro ouvimos falar de coisas terríveis que acontecem com crianças que saíram das vistas dos pais por apenas alguns minutos - mas nós nunca imaginamos que estas situações aterradoras possam acontecer conosco. Anne e Marco Conti também não.
O Casal que Mora ao Lado, de Shari Lapena
Os planos eram simples, apenas um jantar com o casal que mora na casa ao lado enquanto Cora ficava sob os cuidados de uma babá, já que a anfitriã odiava crianças e queria uma noite exclusiva para os adultos. Contudo, as coisas começam a dar errado quando a responsável pela bebê tem que se ausentar: o casal poderia apenas ter cancelado a festa... mas era a primeira vez desde o nascimento da filha que eles tinham a oportunidade de ter uma noite para si - Anne vinha sofrendo de depressão pós-parto e estavam bem afastados desde então. 
Marco sugere uma alternativa: deixar a filha dormindo em casa, com a babá eletrônica ligada e revezarem para conferir se estava tudo certo a cada meia hora. Anne não se sentia muito inclinada a aceitar a proposta, mas acaba se deixando levar... E em algum momento entre a paquera da vizinha com o seu marido e incontáveis copos de vinho, Cora foi sequestrada
Sinopse "O Casal que Mora ao Lado"
"Pensei que ler um livro de uma tacada só fosse muito clichê. Eu me enganei." Linwood Barclay
A partir daí, somos arrastados para uma intrincada trama em que ninguém é o que aparenta ser: não é uma questão de escolher lados, mas de tentar imaginar como você agiria se estivesse no lugar daquela pessoa. E a resposta nunca é fácil. A narrativa de Shari é fluida e, tal qual Linwood Barclay (autor de Sem tempo para despedidas), você vai se sentir impelido a ler toda a obra de uma só vez: não há tempo sequer para respirar.

"Não é o que todos fazem? Todos não fingem ser algo que não são? O mundo inteiro se baseia em mentiras e trapaças." (p. 236)


O trunfo da autora, para ser bem sincera, não é o suspense e o mistério - muito embora sejam aspectos intrigantes da obra, as reviravoltas são previsíveis e nenhuma delas me pegou totalmente desprevenida. Não... a sacada genial vem quando ela usa o que poderia ser um ponto negativo na trama a seu favor: o ponto alto da obra é a construção psicológica dos personagens, o aprofundamento em suas motivações e intenções - e a narrativa em terceira pessoa por diferentes perspectivas ajuda o leitor a imergir no âmago de cada um deles.
Tudo começou em um jantar...
"Uma história surpreendente que conduzirá o leitor a uma montanha-russa de emoções" Tess Gerritsen
Mas O Casal que Mora a Lado vai além de um thriller psicológico envolvente: a autora proporciona ao leitor atento reflexões sobre algumas questões atuais e polêmicas relacionadas a gênero, maternidade e transtornos psicológicos. Vou discorrer bem brevemente sobre cada um desses aspectos e vocês não precisam se preocupar com spoilers - o objetivo é unicamente chamar a atenção de vocês para estes pontos quando forem ler a obra.

"Onde tava a mãe?"

Quando as notícias sobre o sequestro de Cora foram reportadas pela mídia, rapidamente os jornais começaram a responsabilizar os pais por terem deixado a filha sozinha para ir a uma festa - não poderia ser diferente, não é mesmo? Afinal, por mais que todas as providências tivessem sido tomadas, uma criança de seis meses (!) sem nenhum adulto por perto é configurado como abandono de incapaz. A situação se torna problemática, no entanto, quando a população se revolta não contra a atitude do casal, mas sim de Anne: "como uma mãe pôde deixar a filha sozinha?". Independente da ideia ter partido do pai e dele ser tão responsável quanto ela (afinal, Cora não foi gerada só pela mãe, certo?) o ódio é voltado para a figura materna. E nós vemos isso constantemente na mídia: o abandono paterno não é nem de longe tão julgado e sentenciado quanto o abandono materno. E isso nos leva a outro ponto...
As pessoas são capazes de qualquer coisa

A romantização da maternidade

Não é de hoje que a sociedade nutre e impõe às mulheres desde a infância que nós só seremos "completas" quando dermos à luz uma criança - e qualquer opinião que fuja deste ideal é vista como equivocada. E o pior vem quando essas mulheres de fato engravidam: a vida delas, na visão da sociedade, passa a ter que ser dedicada única e exclusivamente à criança - afinal, agora ela é uma Mãe, como M maiúsculo, e existem "atitudes" que devem ser erradicadas (como sair para se divertir com as amigas, por exemplo...  quem vai ficar com a criança?). Mas você deve simplesmente passar por isso, sem reclamar muito, porque "ser mãe é uma dádiva". *insira um revirar de olhos aqui*

"Anne sente necessidade de limpar algo, mas a casa já está impecável. Sente uma energia estranha bem no meio da tarde, uma ansiedade. Quando ainda tinha Cora, passava o dia todo se arrastando. A essa hora, estaria rezando para a filha dormir. Ela chora." (p. 179)


Exatamente devido a essa maternidade dos sonhos a que nos expõem, pouco é falado sobre a depressão pós-parto - um fenômeno mais comum do que parece.

Transtornos psicológicos na literatura

A saúde mental vêm ganhando mais espaço, não só na literatura mas em todos os meios de comunicação. No entanto, a visão que temos sobre os transtornos ainda são muito estigmatizadas: as doenças são retratadas de uma forma sensacionalista e exagerada, fazendo com que as pessoas com doenças mentais sejam vítimas de preconceitos. Mães que sofrem de depressão pós-parto - cujos sintomas mais recorrentes, a título de informação, são um sentimento de tristeza constante, falta de interesse, sonolência, gula ou falta de apetite e sensação de culpa constante - são mulheres solitárias. Porque na maioria das vezes elas são incompreendidas e a consequência é o isolamento social.
Nunca se sabe o que acontece na casa ao lado...
Um dos pontos que mais me conquistou no livro foi a forma como Shari Lapena abordou todas essas questões: não foi necessário mudar o foco narrativo para que ela trabalhasse o debate e trouxesse informações valiosas - não apenas sobre a depressão pós-parto mas também sobre o transtorno dissociativo (que não explorei para evitar spoilers) - de uma forma humana e real. O Casal que Mora ao Lado é, sim, aquela leitura que você devora em apenas alguns instantes... mas traz também uma abordagem muito mais profunda do que os mistérios ao redor do desaparecimento de um bebê.

Título: O Casal que Mora ao Lado | Autor: Sheri Lapena | Editora: Record | Páginas: 294 | Skoob


Já conheciam o livro ou a autora? Quem ainda não leu, algum palpite para o mistério do desaparecimento de Cora? Me contem nos comentários!