04/06/2017

O Muro | William Sutcliffe

a desigualdade social vista pelos olhos de uma criança

Um spoiler para você, leitor querido, que se emocionou com A menina que roubava livros, O menino do pijama listrado e O diário de Anne Frank: você vai se apaixonar por O Muro. Baseado no contexto da Palestina, William Sutcliffe retrata como a segregação é sentida e vivenciada por um garoto que, apesar de possuir certa carga emocional, não estava preparado para descobrir aquela situação.
Livro O Muro, de William Sutcliffe
Conhecemos Joshua em um dia como qualquer outro de sua vida: jogando bola com um amigo (que não gosta tanto assim, mas é a única opção disponível) por ruas impecavelmente limpas de casas que sempre parecem recém-construídas. Essa é Amarias, um lugar onde todos se conhecem e vivem numa falsa harmonia baseada em manter as aparências - pouco importa o que acontece dentro de suas casas idênticas, contanto que não ameace a imagem da cidade perfeita e seus habitantes felizes.

"A vida, como você sabe, é cheia de altos e baixos. Há sempre um preço a se pagar pela perfeição." (p. 10)


Essa máscara, construída com muito afinco, começa a ruir quando a bola de Joshua vai parar em um terreno de construção. Mas este não era como tantos outros nos limites da cidade em expansão: nada era construído ali há anos e o local tinha acesso expressamente proibido. Impulsivamente, o garoto decidiu buscar a sua bola - mesmo que não parecesse ser a melhor ideia do mundo - e essa escolha vai ter consequências profundas em sua vida e na vida daqueles que o cercam.
Livro O Muro, de William Sutcliffe
Acontece que existe mais em Amarias do que casas perfeitamente iguais, jardins milimetricamente aparados e falsos sorrisos: até onde a vista alcança, existe um muro. Uma construção gigantesca, que separa o lado de cá, das "pessoas boas", dos Outros - um grupo supostamente guiado pelo ódio e violência, que estariam dispostos a matar a qualquer momento. E, naquele terreno baldio, Joshua encontra um túnel que o leva direto para o lado de lá.

"Mistérios devem ser solucionados, muros devem ser escalados, esconderijos secretos devem ser explorados. É simplesmente assim que as coisas são." (p. 21)


O garoto se depara com uma realidade completamente diferente de tudo o que ele poderia imaginar e, de certa forma, a crueldade daquela situação toca algo dentro de si. Perseguido por uma gangue sanguinária e salvo pela bondade de uma menina que arrisca sua vida por ele, Joshua percebe quão injusto é o fato de ele tanto ter enquanto aquelas pessoas lutavam diariamente para tentar sobreviver. Ele se sente em dívida e fará tudo o que estiver ao seu alcance para tentar consertar uma situação da qual ele faz parte, mas não tem controle algum.
Livro O Muro, de William Sutcliffe
Detalhes delicados da edição: a oliveira tem um significado profundo, tanto na trama obra quanto na da vida real
A premissa da obra é bem semelhante à dos livros que relacionei a ele no início dessa postagem, especialmente O Menino do Pijama Listrado, o que me deixou com o pé atrás. Felizmente, os meus receios se mostraram infundados: o que torna O Muro uma narrativa única, independente de suas similaridades com obras famosas, é a forma como o autor conduz as descobertas de Joshua e as metáforas que ele utiliza para representar as mudanças que ocorrem no âmago do garoto.

"Eu mudei o bosque, e o bosque está me mudando" (p. 199)


Acompanhamos a trajetória de amadurecimento do protagonista pela sua própria perspectiva - um fato que poderia ter prejudicado a complexidade da trama, mas acabou por agregar muito devido à ingenuidade com que Joshua refletia sobre os acontecimentos. Um dos momentos mais sensíveis da obra é, de fato, ver o personagem refletir consigo mesmo sobre as coisas que viu e chegar na conclusão de que a desigualdade a que pessoas como ele estavam sendo submetidas era errada.
Livro O Muro, de William Sutcliffe
O Muro vai muito além da segregação, trazendo à tona outros temas polêmicos como o radicalismo religioso e relacionamentos abusivos. O ponto negativo da obra, no entanto, se encontra bem aí: o fato da narrativa ser apenas pela visão de Joshua limita muito a construção ao redor das outras temáticas. Senti falta de capítulos narrados pela mãe, pelo padastro ou por Leila, a garota do lado de lá - dessa forma, a trama poderia ter se desenvolver de forma mais complexa e completa.

"Ela ainda está ali, exatamente como eu me lembrava dela. Eu sabia que estaria, mas tenho que checar. Mesmo quando algo é real e está logo à sua frente, ainda pode ser difícil acreditar." (p. 126)


A importância desse livro vai muito além de seu valor como entretenimento: William Sutcliffe traz em sua obra conscientização sobre a situação que milhares de pessoas estão vivendo, sem que sequer tenhamos conhecimento disso. Vale pesquisar sobre o assunto - afinal, essa é a moral da história: saber dói, mas é melhor do que a ignorância cega ao sofrimento alheio. O que podemos fazer por essas pessoas?
Livro O Muro, de William Sutcliffe
Título: O Muro | Autor: William Sutcliffe | Editora: Record | Páginas: 336 | Skoob


"Mesmo se você fugir, olhar na direção oposta e nunca mais falar sobre isso, a pessoa - a pessoa morta - não irá desaparecer. A ausência pode ser tão real quanto a presença (...)" (p. 63)

Obra recebida como cortesia do Grupo Editorial Record. Isso não afeta a honestidade da minha opinião!