26/07/2017

Dia 11 | Carta aos mortos

Esta postagem é parte do projeto 30 Days Letter Challenge, e hoje eu deveria escrever para alguém que já morreu. Para saber mais e ler outras cartas, clique aqui.
Hoje caminhei por entre seus túmulos. O sol arde forte, mas uma brisa refrescante torna o dia de certa forma agradável - e a cena, de fato, é pouco condizente com a imagem que as pessoas criam de uma visita ao cemitério. Não tenho família nem amigos enterrados aqui. Não vim prestar homenagem a alguém específico ou posicionar flores sobre uma placa de mármore. Vim conversar com vocês.

A morte é algo solitária, porque as pessoas não sabem lidar com sua própria finitude. Somos criados para ignorar e temer a efemeridade da nossa existência, para nos calarmos sobre um processo tão natural quanto a morte. E, bem, imagino que seja um pouco entediante ficar por aqui sem uma alma diferente vez ou outra, então... oi. 
Não vou negar que os poucos que souberam do meu ato ficaram um pouco aterrorizados, vocês deviam ter visto. "Cemitérios só trazem coisas ruins", disseram. "Por acaso está envolvida com alguma coisa de magia?". Devo admitir que foi um pouco engraçado. A verdade é que percebo uma beleza ímpar na morte, algo que sempre me fascinou desde que me entendo por gente. Recordo claramente das noites insones refletindo qual era o grande sentido da vida se em tão pouco tempo todos estaríamos enterrados e esquecidos por todos, um amontoado de ossos indiferenciáveis. Depois de tanto tempo, eu compreendi - ou, pelo menos, criei uma explicação plausível que aplacasse minha mente agitada pela irracionalidade da situação.
É que no fim, meus amigos, não somos nada mais do que energia. E talvez vocês saibam que, de acordo com o princípio de conservação das massas, "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma". Eu sei, estou extrapolando o que Lavoisier quis dizer, mas acompanhem o meu raciocínio. Se nossos corpos não passam de um receptáculo para a linda energia que nos compõe, quando morremos não fazemos nada mais do que liberar nossa essência para o mundo - dessa forma, tudo o que eu sou hoje é um compilado daqueles que foram antes de mim e fará parte daqueles que virão. Todos nós estamos conectados, entende? 
E, bem, foi pensando assim que eu percebi que queria ser uma pessoa melhor do que eu era. Me ajudou muito com alguns problemas que eu tinha, sabe... Porque o que me assusta não é morrer, é ser responsável por liberar energias ruins quando eu me for. E este é o motivo para eu estar cuidando de mim, por dentro e por fora, tentando ser uma pessoa melhor e me amar mais. Cuidar da minha energia se tornou minha forma de mudar o mundo...
Bem, vou indo. Foi bom passar um tempo aqui e, onde quer que vocês estejam, saibam que há pessoas aqui que se lembram. E que são gratas.