26/11/2017

Quando a noite cai | Carina Rissi

O que existe por trás de seus sonhos?

Diversas áreas do conhecimento já tentaram explicar o que são os sonhos - e nenhuma delas foi completamente bem-sucedida. De onde vêm as cenas surreais e o universo que parece ter uma lógica própria, sem seguir qualquer racionalidade estabelecida pelo real? Esse é um questionamento que Briana Pinheiro se faz, todos os dias, desde que completou dezoito anos: pois nos seus sonhos, ela vive a história de outra pessoa. No caso, uma princesa irlandesa da era medieval que, ao fugir de um casamento arranjado com um homem terrivelmente cruel, se depara com um guerreiro líder de uma pequena tribo, Lorcan - e se apaixona perdidamente por ele. Não apenas em sonho.
A vida além das noites agitadas em um passado fantasioso não vai muito melhor: a situação financeira de sua família é crítica, ninguém mais se interessa por hospedar-se em uma pensão tradicional e caseira com grandes e luxuosos hotéis espalhados por aí. Para ajudar nos custos, Briana deixou de lado o sonho de tornar-se uma artista e passou a trabalhar fora - não que venha tendo muito sucesso nessa atividade. Eu, pessoalmente, sou uma pessoa bem desastrada - como todo bom sagitariano deve ser. Mas Briana supera qualquer uma das minhas vergonhas em público: ela não só cai, como quebra coisas. Coisas caras. Consequentemente, não consegue passar muito tempo no mesmo emprego.

"Essa é a diferença entre fantasia e realidade: a vida te frustra a todo instante enquanto a fantasia te entorpece com suaves doses de falsas esperanças." (p. 203)


Depois de ser despedida de novo - dessa vez, felizmente, com a sorte de não ter que pagar pelo prejuízo -, Briana se vê um tanto quanto desesperada: onde diabos ela encontraria um trabalho se não conseguia se adaptar em lugar algum? Uma oportunidade inacreditável parece cair do céu e a garota vai para a entrevista, pouco confiante... é quando Gael O'Connor atravessa seu caminho - ou o atropela, melhor dizendo. O misterioso irlandês, convenientemente dono de uma grande empresa e necessitado de uma nova secretária, oferece para ela a vaga: estaria tudo bem (tirando o medo de dar mais mancadas) se o novo chefe não fosse idêntico ao guerreio de seus sonhos - tirando, é claro, o persistente mau-humor rabugento. Briana tenta, ao mesmo tempo, manter a má sorte longe do escritório e separar a realidade da fantasia: afinal, não seria nada sábio se apaixonar pelo chefe, especialmente quando eles terão que viajar juntos para a Irlanda - cenário de todos os seus sonhos. 

Literalizando...

Devo admitir que iniciei a leitura de Quando a noite cai com expectativas muito altas devido a minha experiência anterior com a autora - e, surpreendentemente, essas expectativas não apenas foram atendidas como foram superadas. Só para vocês terem uma ideia, eu devorei as quase 500 páginas em apenas dois dias: a narrativa da Carina Rissi é muito envolvente e viciante, me fez suspirar, dar muitas risadas e querer continuar lendo para saber o que aconteceria a seguir. Além do romance, que parece ser a marca registrada da autora, também temos na obra um certo mistério e - embora eu tenha matado parte da charada já nas primeiras páginas - foi algo que me instigou bastante durante a obra inteira.

"Depois de tantos anos, era de esperar que eu já tivesse me acostumado com aquilo. Mas eu não tinha. Era um choque a cada vez que eles se repetiam. E a dor da ausência era tão real quanto qualquer outra coisa que eu já tivesse experimentado." (p. 35)


Os personagens criados por Carina são conhecidos por serem encantadores e os desse livro não fogem à regra: gostei muito de acompanhar Briana, que narra todo o enredo em primeira pessoa, porque ela não é apenas a garota boba, distraída e desajeitada que se apaixona por um cara que não pode ter. Ela é extremamente leal àqueles com quem se importa, é talentosa e muito forte - afinal, não é qualquer um que desiste de todos os seus sonhos para tornar reais o de outrem. Não sei nem se preciso falar do combo Gael e Lorcan, porque em ficção não basta ser um ultraje de tão lindo, ainda tem que ser o homem mais gracinha do universo observável. Personagens secundários, como a Aisla e Lorenzo que eu já shippo horrores para um próximo livro, também têm o seu brilho e a obra não seria a mesma sem eles. Esse é um grande potencial da Carina: criar personagens que à primeira vista parece superficiais e, aos poucos, mostrar as inúmeras facetas que eles possuem, compondo uma personalidade completa e profunda, encantadora e real.

A questão dos problemas mentais

Outra coisa que fez com que eu me apaixonasse com a autora foi o fato de que ela não deixa de trabalhar temas sérios em seus romances. Em Mentira Perfeita, ela deu lugar e voz a Marcus - um deficiente físico. Por meio do personagem, refleti muito sobre como a sociedade vê e trata essas pessoas: senão com repulsa, com um excesso de cuidado inconveniente. Nessa obra, ela não dá um espaço tão grande, mas faz uma pequena discussão sobre o preconceito que a maioria das pessoas tem em relação à procurar ajuda para um problema mental - foi nesse momento em que ela me conquistou de vez. Vou finalizar essa resenha com o trecho e espero, de coração, que pensem um pouco sobre ele:

"Nunca entendi por que as pessoas sentem tanto constrangimento e aversão acerca das doenças psicológicas. Depressão, transtornos, estresse são doenças tão sérias quando cálculo renal, problema cardíaco, câncer. Todas elas podem matar, a seu modo, então qual é o grande problema? Por que se envergonhar de procurar um psicólogo ou um psiquiatra, mas não ao agendar uma consulta com o cardiologista? Se existe esperança de cura, de se livrar da dor, seja física ou mental, porque perder tempo com preconceitos sem fundamentos?" (p.131)

Aleatoriedades


  • Briana também apareceu lá no instagram do Literalize-se, como um distraída pisciana! Sagitariano é desastrado e combinaria com ela, mas ela demorou tanto para sacar tudo o que tava acontecendo que merecia o posto de lerdinha.
  • Eu sempre tenho muita dificuldade de escrever sobre os livros que eu gosto e, considerando que Quando a noite cai foi um dos meus favoritos do ano, foi muito complicado tentar passar para vocês o quanto a Carina Rissi me encantou nessa obra. 
  • Meu primeiro contato com a Carina Rissi foi ano passado, lendo Mentira Perfeita - e, se estiverem se sentindo corajosos, podem ler a resenha que eu fiz na épocaDepois de ler Mentira Perfeita, eu gostava da autora. Depois de ler Quando a noite cai ela se tornou uma das minhas favoritas.
  • EU QUERO UM GAEL PRA CHAMAR DE MEU. 

A chuisle mo chrói ♡

Título: Quando a noite cai | Autor: Carina Rissi | Editora: Verus | Páginas: 476 | Skoob


O que vocês acharam do livro? Alguém já leu? Me contem nos comentários!

VOA, LIBELINHA
VOA 🙙