05/12/2017

Precisamos falar (um pouco mais) sobre Stranger Things

Eu tenho uma mania boba de não entrar em contato com as coisas logo que elas estão bombando - acho que ver algo toda hora na timeline, no feed e nas conversas ao meu redor acaba me desanimando de procurar ver mais por conta própria. Só fui ver tanto a primeira quanto a segunda temporada de Stranger Things quando a poeira já tinha abaixado e, nas duas ocasiões, fui pega de surpresa por uma maratona não planejada (que valeu cada segundo de sono a menos, devo dizer). Eu sei, eu sei. Já está todo mundo cansado de falar sobre Stranger Things. Acredite, eu também estava um pouco, até que vi algumas coisas que acabaram por chamar a minha atenção - e, como de praxe, não consegui segurar o impulso de correr para compartilhar um pouco dos meus pensamentos com vocês. Ah, um aviso importante: essa postagem pode conter spoilers!

Um pouco além da maratona

Quando uma série consegue me fazer ficar horas vidrada na frente da tela do computador, eu automaticamente presumo que foi algo muito bom - afinal, eu tenho especialização em dormir no meio de filmes e outras produções cinematográficas. Só depois que passa a empolgação inicial que eu consigo parar para, de fato, refletir sobre o que eu vi: o que eu gostei, o que eu mudaria, o que me incomodou terrivelmente... E nessa análise eu percebi que a segunda temporada de Stranger Things (ao contrário da primeira) não me agradou tanto assim - por alguns aspectos bem pontuais:
  • Galera nova na área: Vamos falar sobre Billie e Max. Eu me incomodaria já com o fato de serem personagens extremamente clichês - mas devemos admitir que toda a série tem girado em torno de caricaturas que vão adquirindo profundidade no decorrer da trama, por isso dei uma chance. No entanto, os episódios passaram e eles de fato não fizeram diferença alguma: Billie foi acrescentado para ser o vilão humano, o bad boy que toda escola precisa ter (papel que o Stevie acabou falhando em cumprir porque no fundo ele é um amorzinho). O mérito da existência dele é demonstrar como a instabilidade familiar pode influenciar o comportamento da pessoa com os outros, o que acaba se tornando uma discussão interessante sobre o bullying. A Max, por outro lado, tem todo um mistério sendo construído ao redor dela - para nada. Só no último minuto do segundo tempo que a personagem parece receber uma nova camada de complexidade. 
  • Triângulo amoroso desnecessário:  O pequeno romance entre a El e o Mike na primeira temporada não me incomodou, porque foi construído de uma forma bem inocente e tranquila. Por outro lado, achei muito forçado o que fizeram entre a Max, Dustin e Lucas - especialmente uma cena em que Steve fala que dá para sentir a tensão sexual entre duas pessoas que se gostam. Acontece que tanto os atores quanto os personagens são ainda muito novos e, sinceramente... Fiquei pensando no fato de que alguns deles deram o primeiro beijinho em um set de filmagem, tendo que repetir a cena diversas e diversas vezes porque estavam nervosos demais.
  • Faltaram waffles: Nesta temporada, Eleven está em um momento de autodescoberta - para ela, importa saber sua história e como foi parar ali. Além de algumas cenas magnificas com outro personagem (que não vou dizer quem é, porque já seria um spoiler grande demais), ela fica um pouco de lado durante a maior parte do enredo. Algo que também não me agradou foi o fato de existir um episódio dedicado somente a ela, que acaba quebrando o ritmo da narrativa - considerando que as situações desse episódio ocorrem em paralelo com os acontecimentos de Hawkins, não vejo porque não distribuíram aquele episódio em doses homeopáticas.
Claro que houve pontos positivos - mas desses acho que estão carecas de saber, visto que a série foi estrondosamente aclamada. Então não vou ficar aqui, apenas repetindo o que vocês já leram em outros lugares ou ouviram de outras pessoas: as referências, o elenco carismático, a história envolvente... Ao invés disso, quero suscitar uma problematização breve - e eu espero que vocês não tomem birra de mim por isso.

Leave them kids alone

Passou-se um ano depois a primeira temporada de Stranger Things e, nesse meio tempo, o elenco mirim mudou bastante. E a forma como a sociedade os vem tratando também - porém, nada novo sobre o sol. A própria Emma Watson já falou em um discurso que a industria cinematográfica começou a sexualizá-la com apenas 13 anos, e a história está se repetindo com Millie Bobby Brown, atriz que representa a Eleven, e Finn Wolfhard, que encarna Mike. Além de claramente haver um trabalho sobre a imagem dos dois, para deixá-los mais "adultos", também vêm ocorrendo toda uma situação de assédio envolvendo um suposto "romance" - obviamente, inspirado pela situação na série.
O que mais assusta é ver os comentários nas redes sociais: uma modelo pediu para que Finn entrasse em contato com ela daqui quatro anos, quando ele fosse maior de idade - e esse é só um entre milhares de exemplos. Esse caso me  lembra muito o que aconteceu com Valentina no MasterChef Junior: a garota, na época com 12 anos, foi extremamente assediada pelo Twitter e eu devo avisar a vocês que isso se chama pedofilia. E, para ser bem sincera, eu não tinha parado para pensar nada disso até que a mais do que maravilhosa Louie fez um vídeo no canal dela que abriu os meus olhos - recomendo que vocês assistam o vídeo abaixo com atenção e mente aberta:
Para mais exemplos de situações semelhantes, recomendo o artigo "Como estamos a sexualizar os atores de "Stranger Things, Eleven incluída", em português de Portugal. Estou trazendo esse assunto porque acho necessário que reflitamos sobre as nossas atitudes e como elas podem fazer mal a essas crianças que estão sendo bombardeadas com uma atenção com a qual elas ainda não têm idade para lidar - se bem que, se pararmos para pensar, ninguém está de fato preparado para tornar sua vida tão pública e suscetível à críticas alheias.
Tenho completa ciência de que essa postagem está muito longe de aprofundar em um tema tão importante de ser discutido atualmente, mas senti que precisava ao menos introduzir o assunto e dar para você algumas referências externas para se informarem e poderem refletir um pouco. Não desistam de mim por ser a "chata" da problematização ♡

VOA, LIBELINHA,
VOA 🙙