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17/01/2018

A Montanha | Lori Lansens

Haverá turbulências

Existem histórias que só podem ser apreciadas (e verdadeiramente compreendidas) quando acumulamos certa experiência de vida - e essa é uma delas. Por muitos anos, Wilfred Truly guardou nos recônditos de sua memória os detalhes mais sórdidos dos cinco dias em que ficou perdido com três mulheres desconhecidas que, de diversas formas, salvaram sua vida. No entanto, existem segredos que ele não tem o direito de esconder daqueles a quem dizem respeito... E é chegado o momento de reviver todas as dificuldades, renúncias e sacrifícios vividos na montanha.
A Montanha, de Lori Lansens
É difícil precisar bem como tudo começou: foi quando seu irresponsável e bêbado pai foi preso por atropelar aquele casal? Ou foi quando seu melhor amigo, Byrd, morreu na mesma montanha onde eles se sentiam livres e vivos? Poderia ser relacionado à mudança da casinha azul no Michigan para a Vila de Lata na Califórnia, em um trailer tão lotado que crianças defecam no chão. Ou, pensando melhor... algo já devia ter quebrado no garoto quando sua doce mãe, Glory, morreu. Seja uma situação específica ou uma soma cruel de todas elas, o que importa é que no dia de seu aniversário de 18 anos Wolf Truly decidiu se matar.

"Em geral eu gostava de caminhar num ritmo ligeiro, mas nesse dia eu estava ofegante , os passos lentos, arrastando prematuramente meu peso morto, pensando não no meu fim, mas na soma de mim - em todos os antes e depois que tinha me conduzido ate aquele momento." (p.22)



Refazendo os passos que tantas vezes fez acompanhado de Byrd, o jovem sobe a montanha em direção ao Pico do Anjo - um lugar deles e apenas deles, onde a amizade foi posta à prova e onde sua vida deveria terminar. No meio do caminho, porém, ele se depara com um grupo de mulheres procurando pelo lago secreto - e indo na direção errada. Sem querer carregar para a morte o peso na consciência de deixá-las se perderem, ele adia seus planos para guiá-las pela montanha... mas acidentes inesperados fazem com que eles se percam e despenquem por um paredão impossível de escalar em uma pequena área da montanha cercada por um enorme precipício - não parece ter nenhuma saída óbvia. A única esperança de sobrevivência é serem encontrados pela equipe de resgate mas, sem água ou comida e não tendo deixado para trás ninguém que se importasse o suficiente com o desaparecimento, as chances parecem menores a cada dia.
A Montanha, de Lori Lansens

Literalizando...

O fator que me atraiu para essa obra, a princípio, foi a existência de um personagem deprimido com ideações suicidas - por algum motivo, é algo que acaba fazendo com que eu me interesse pela narrativa, uma certa curiosidade para ver como aquela situação será representada. Por mais que minha empatia por Wolf tenha sido instantânea, tive muita dificuldade em me conectar com o enredo nas primeiras dezenas de páginas: embora sempre houvesse algo acontecendo, seja na tragédia presente ou nas memórias do passado, eu não consegui me envolver com a história que me era contada. Não sei bem em que momento isso mudou, mas foi uma ruptura com tudo o que eu estava pensando e sentindo sobre a obra. Quase que de uma página para a outra eu senti aquela necessidade de saber o que aconteceria com aqueles personagens que eu aprendi a amar, por mais que o caminho tenha sido tortuoso - acontece que A Montanha não é apenas sobre uma jornada de sobrevivência, é sobre a vida. Sobre família, amizade e companheirismo, sobre como afetamos a vida de outras pessoas e somos afetados por elas.

"Arrependimentos. Claro que pensamos em arrependimentos, mas não é o arrependimento das coisas que você fez que ocupa sua cabeça, é a melancolia pelas coisas que você jamais terá a chance de fazer." (p.289)



Sendo assim, o ponto forte dessa obra é a construção dos personagens: ninguém é, de fato, o que pareceu ser à primeira vista. Vislumbramos de relance a ponta do iceberg e a autora nos guia em um breve mergulho na profundidade de cada personagem: são humanos, reais e palpáveis, com virtudes e defeitos, erros e acertos - é isso que acaba por conquistar o leitor e fazer com que ele queira saber o desfecho. Não é o clima implacável da montanha, a fome que espreita, a sede que racha os lábios, a esperança que aos poucos se esvai - é o medo de que Wolf, Nola, Bridget e Vonn nunca tenham a oportunidade de resolver seus conflitos pessoas, a vontade de entender o porquê de suas decisões e a descoberta de que o que forma uma pessoa é muito mais do que podemos compreender. O lema de Wilfred Truly, já mais velho, faz jus perfeito à minha relação com essa obra: haverá turbulências.
A Montanha, de Lori Lansens

Aleatoriedades


  • Demorei semanas para ler alguns capítulos, mas terminei o livro em uma única tarde quando finalmente engatei na leitura.
  • Eu sou simplesmente apaixonada pelo projeto gráfico desse livro - sério, olha que capa mais linda!
  • Achei interessante a escolha de apelidos, Wolf e Byrd, porque os animais "correspondentes" falam muito sobre a personalidade desses personagens.
  • Chorei horrores. Chorei tanto que tive que parar para lavar o rosto, porque eu já não conseguia distinguir as letras e palavras para formar frases.
A Montanha, de Lori Lansens

Título: A montanha | Autor: Lori Lansens | Editora: Record | Páginas: 322 | Skoob


O que acharam do livro? Já leram ou leriam? Me contem nos comentários!

Obra recebida como cortesia do Grupo Editorial Record. Isso não afeta a honestidade da minha opinião!

VOA, LIBELINHA,
VOA 🙙

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