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21/03/2018

Centelha

A intensidade de um olhar observador
Photo on VisualHunt.com
Uma torrente de estímulos invade meus sentidos no exato momento em que abro uma fresta entre minhas pálpebras. A vila costuma ser um lugar barulhento, mesmo em dias chuvosos como este: não raro os trabalhadores despertam antes mesmo do grande astro dar sinais de vida com os tons rosáceos do amanhecer, ansiosos por cumprirem as árduas tarefas que garantem a sobrevivência da grande família formada por cada um dos habitantes ⎼ todos têm um papel a cumprir, seja na pesca ou no artesanato, e se regozijam da presença um do outro todas as noites ao redor de uma calorosa fogueira. Até mesmo eu. 
Ninguém sabe exatamente quem sou ou de onde vim ⎼ e, ainda que eu fosse capaz de produz sons com minhas cordas vocais, não poderia saciar sua curiosidade afim de retribuir as gentilezas: não sei muito além do que aqueles que me abrigaram e alimentaram quando ainda não poderia me sustentar sozinha.
Foram poucos segundos até que eu percebesse que os sons que chegavam aos meus ouvidos não eram os da rotina laboriosa de uma vila de pescadores. Aqueles não eram gritos de camaradagem na realização de um projeto em comum... eram gritos desesperados por ajuda. Não. Não, não, não. Subitamente, me tornei mais consciente da lama sob meu corpo e do ar gélido que se infiltrava em meus pulmões. Isso não estava certo. Rolo no chão, sem me importar com o peso das minhas roupas encharcadas com uma mistura pegajosa da água da chuva e da terra que aprendi a amar, e me ergo silenciosamente olhando ao redor: o discreto beco por entre casas humildes seria dificilmente detectado por qualquer forasteiro que não estivesse familiarizado com a geografia peculiar daquele lugar.
Se tem algum momento de minha singela vida do qual posso dizer que me orgulho, é este: fugir sequer passou pela minha cabeça. Até hoje não sei bem o que pensei que poderia fazer pelo meu povo, mas eu não poderia abandoná-los ⎼ essa seria uma traição imperdoável.
Sorrateiramente me aproximo da direção que parece ser a fonte do caos: nossa pequena praça, onde as crianças e eu nos reuníamos para ouvir as histórias surreais dos jovens aventureiros sobre um homem tão mau que corrompeu mesmo a essência benevolente de um dragão ancião. Com a respiração pesada, procuro com olhar atento um caminho seguro ⎼ seria perigoso demais sair do beco, mesmo com toda discrição. Avisto estruturas de madeira de aparência frágil e escorregadia, sustentando algo como uma plataforma que há tempos pretendeu se tornar a morada de algum novo membro da família: com cuidado, me ergo buscando apoio para os pés em qualquer ponto que oferecesse a mínima tração ⎼ só quando meus braços já estão em chamas, cansados de exercer uma força a qual não estão acostumados, consigo me jogar de uma forma desajeitada na superfície ligeiramente apodrecida devido à incessante chuva dos últimos meses. Rastejo de encontro à parede em uma das laterais da plataforma, usando-a de apoio para levantar aos poucos o meu corpo enquanto me garanto de que nenhum daqueles homens raivosos perceberia um rosto sujo observando. Só então me permito olhar ao redor.
Destruição. Por toda parte. Homens protegidos e armados relampejando em dourado, o branco de suas roupas encardido pela lama ⎼ o fato de serem do exército do rei não fazia com que deixassem de ser meros mortais vulneráveis às intempéries ⎼, avançando contra indefesos trabalhadores que reagiam com as ferramentas que puderam encontrar. Não tínhamos a menor chance. Paralisada onde estava, observei a lama tomar uma tonalidade avermelhada enquanto as pessoas que conheci por toda a minha existência caiam uma a uma. Aquela sempre seria, para mim, a cor de uma chacina cruel.
Talvez, por já ter aceitado que ninguém sairia desta vila com vida, eu não tenha percebido à princípio a mudança na atmosfera ⎼ o clima pesado de desalento era invadido por um tímido fio de esperança, uma perspectiva tão ínfima mas tão... vital, que nos agarramos a ela com qualquer resto de força de nosso âmago. Temendo a frustração, ousei buscar algo que parecesse minimamente favorável no caos que se desenrolava à minha frente e, quando avistei a centelha, ela se inflamou diante dos meus olhos: sua presença surpreendia, mas não apenas pelos aspectos óbvios ⎼ ia além do fato de galgar uma loba atroz de pelagem castanha que avançava obstinadamente enquanto zuniam flechas mortíferas a cada tensionar da linha de seu arco, do movimento leve e violento ao finalizar seus alvos com duas adagas tão cortantes quanto o frio daquele dia.
O que eu nunca vou esquecer é o seu olhar: sereno, como se não houvesse dúvidas do que precisava ser feito.

Esse conto foi escrito para a blogagem coletiva do Daydream, o melhor grupo borbulhante de blogueirxs do site feices todinho. Assim como os contos do projeto Na Ponta da Caneta, do Who's Thanny, usei a oportunidade para desenvolver o universo do meu livro. Me contem o que vocês acharam!  

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