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06/01/2019

Os Imortalistas | Chloe Benjamin

Nós abominamos spoilers. Você está seguro.

A morte é inevitável

O ser humano sente tanto fascínio quanto terror no que diz respeito à sua própria finitude. O que torna a inevitabilidade ligeiramente mais suportável é justamente sua imprevisibilidade: afinal, de certa forma nos consola a ilusão de que, sim, morreremos um dia... mas esse dia ainda está tão distante que não vale a preocupação hoje. O que aconteceria, pois, se você soubesse a data exata de sua morte? Como seria sua vida a partir dessa constatação? Afinal... são os nossos passos definidos por um destino irremediável ou nossas escolhas possuem alguma influência, ínfima que seja, na indicação do caminho a ser trilhado?
Livro "Os Imortalistas", de Chloe Benjamin
É com o peso de tais perguntas que quatro irmãos ⎼ Varya, Daniel, Klara e Simon Gold ⎼ têm de lidar pelo resto de suas existências quando um ato impulsivo em um verão ocioso os torna reféns das respostas que não serão capazes de encontrar. Após ouvirem rumores da chegada de uma estranha mulher com o suposto poder de predizer a data exata da morte de qualquer um, eles reúnem suas economias e saem sorrateiramente de casa para consultá-la. As profecias que ouvem, um de cada vez ocupando seu lugar na atulhada sala da vidente, perturbam o coração das crianças e o assunto vira um tabu entre os irmãos ⎼ contudo, a recusa em falar sobre algo não impede que a sua influencia se dê em cada passo no curso de suas vidas a partir de então.

❝Ela sabia que as histórias tinham o poder de mudar as coisas: o passado e o futuro, até o presente.❞


Enquanto Simon, o caçula no qual todas as esperanças de continuação do legado da família Gold recaem, decide impetuosamente escapar para São Francisco em busca do amor, Klara se torna obcecada pela tênue linha entre realidade e fantasia, almejando retomar a magia que faz morada no seu sangue ao investir seus esforços em uma carreira de ilusionista. Daniel, com suas maneiras taciturnas, tenta lidar com as crises que o alcançam quando nada mais parece certo após o atentado de onze de setembro, e Varya... a irmã mais velha se isola, ainda mais do que na infância, e dedica sua vida a testar os limites entre a ciência e a imortalidade. Mas nada parece o suficiente para aplacar o temor em suas almas, que se exacerba com o tiquetaquear do relógio...

Literalizando...

A trama, que se passa entre os anos de 1969 e 2010, é segmentada em quatro porções: ao invés de intercalar entre os personagens, estratégia que considero mais costumeira, cada uma delas acompanha um dos irmãos separadamente em seu percurso até a fatídica data de sua morte. A narrativa, em terceira pessoa e ricamente descritiva, se altera perceptivelmente conforme muda a perspectiva ⎼ algo que, ao mesmo tempo em que aprofunda a construção dos personagens, pode tornar morosos alguns arcos a depender de sua identificação com cada um dos irmãos. O que torna a leitura intensa não é tanto o medo de que a previsão se revele verdadeira, mas sim a tensão gerada por acompanhar seus sentimentos, seus medos e suas angústias: em suma, vivenciar com os irmãos tanto os esforços para evitar a morte quanto para viver a vida ao máximo ⎼ mesmo que, para tal, eles tomem decisões que só parecem fazer com que a profecia pareça mais real.

❝A questão não é negar a realidade, mas descascar seu tecido, revelando suas peculiaridades e contradições.❞


Chole Benjamin apresenta ao leitor um enredo profundo e uma obra difícil, em muitos sentidos: além de tratar de temas que trazem certo desconforto de uma forma reflexiva e até mesmo filosófica, muito fica por conta daquele que está lendo. É tarefa nossa, depois de envolvidos pela misteriosa e atraente proposta do livro, interpretar o que se desenrolou diante de nossos olhos ⎼ afinal, é possível que caráter seja destino? Ou foram meras coincidências em decorrência de escolhas impetuosas influenciadas pelo medo? Afinal, sequer temos algum tipo de livre arbítrio ou apenas nos iludimos enquanto seguimos caminhos pré-determinados? As respostas não estão nesse livro nem em qualquer outro lugar. Por muito tempo depois de virar a última página, o que li continuou rondando minha mente: minhas expectativas, que estavam altíssimas por conta da temática da morte, não foram alcançadas ⎼ pelo menos, não da forma como imaginei que seriam. Por algum motivo, acreditei que encontraria elementos fantásticos no enredo mas o que encontrei foi mágico à sua própria maneira visceral de ser. Pessoalmente, tive muita dificuldade em sequer definir se gostei ou não dessa leitura: não é nada do que eu esperei mas ao mesmo tempo... é muito mais do que eu poderia esperar. 
Os Imortalistas é uma obra de ficção contemporânea com leves toques de fantasia, voltado para o público adulto. É um romance profundo que trata dos dramas da vida familiar, enquanto explora os domínios do destino e da escolha, da realidade e da ilusão, a vida e o que pode nos esperar depois dela ⎼ questões que permeiam as mais íntimas reflexões do imaginário coletivo. As entrelinhas ainda podem nos proporcionar grandes aprendizados sobre temas como o preconceito, o surgimento da AIDS e os efeitos que sofrimentos psicológicos exercem não apenas naquele que o possui, mas também naqueles que se importam. Leitura fortemente recomendada e agradável.

❝O custo da solidão é alto, ela sabe, mas o custo da perda é maior.❞


Aleatoriedades

  • Só precisa me conhecer um pouquinho para saber do meu fascínio sobre o tema da morte ⎼ não é como se eu sequer tentasse esconder de alguma forma. Quando esse livro chegou da parceria com a Harper Collins Brasil, eu logo dei um jeito de passar ele na frente de outros que estavam esperando. Porém, como disse na resenha, levei um longo tempo para digerir o que eu tinha lido e o que eu sentia a respeito.
  • Essa é, atualmente, uma das edições mais lindas da minha estante ⎼ e olha que eu tenho umas caveirinhas de encher os olhos aqui. A capa é aveludada e dá vontade de ficar abraçado com o livro, o que eu fiz em alguns momentos.
  • A minha interpretação da obra, aquela que se encaixa de certa maneira nas minhas próprias crenças, é de que a vidente não é uma charlatã (pelo menos, não essa). Para mim, fez muito sentido o argumento de que caráter é destino: temos escolhas, sim, mas todas elas são baseadas em quem nós somos. E basta seguir o padrão para encontrar a resposta no fim da linha. Só discordo quanto à capacidade de mudança, anulada pela cartomante: creio eu que é justamente a mutabilidade do ser que torna tão imprevisível nosso destino ⎼ nessa improbabilidade que se encontra o elemento fantasioso da obra.

Título: Os Imortalistas | Autor: Chloe Benjamin | Ano: 2018 | Páginas: 331 | Compre na Amazon
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Ufa! Ainda estão por aí? O que acharam do livro? Me contem nos comentários!
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