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05/02/2019

Cautela

Cautela
Crédito: AegirPhotography on VisualHunt / CC BY-NC
A comoção era palpável. Envolvia seu corpo na forma de um manto indesejado que tornava sua movimentação pesada, como se tentasse abrir caminho por entre águas turvas. Embora mantivesse o rosto impassível erguido e focado em seu destino, propositalmente tornando tudo a seu redor nada mais do que uma cena desfocada, ela sentia o olhar deles. O impacto, violento como o das maças e martelos que pareciam ansiosos para brandir, parecia capaz de fazê-la vacilar em seus passos ⎼ estes, que sempre foram firmes como a rocha que os abriga e protege. Muitas foram as crises com as quais ela lidara antes, mas Rasdra nunca sentira o peso da liderança de forma tão cruel quanto neste momento ⎼ a dor, a ferida profunda que agora a afligia, tornava difícil acessar sua racionalidade comedida.
A curta e penosa caminhada chega em seu fim. Rasdra preferiria aquela silenciosa tortura pelo resto de seus anos vindouros do que enfrentar a fúria, a ira, de seu povo. Lentamente, seus pés alçam o caminho por degraus rusticamente talhados na rocha até uma pequena plataforma ⎼ apenas o suficiente para que ela visse e fosse vista por todos, apenas o suficiente para confirmar com os olhos que já não podiam se negar a enxergar, a confirmação fatal no brilho dos olhos de cada um daqueles rostos imundos e castigados. Não se ouve nenhum som no salão além das respirações entrecortadas, cuja resposta vêm em forma de um fraco eco pelas paredes úmidas da caverna que há muito chamam de lar. É uma rara ocasião, este silêncio sepulcral. Aterrorizante em sua beleza perturbadora.
Rasdra sequer teve tempo de se pronunciar, de se preparar, antes que o primeiro ataque viesse em um brado que retumbou na calada do aposento. Não levou muito mais antes que outras vozes se unissem à primeira, impondo-se com a força de uma dor que urge ser exteriorizada em agressividade, em vingança... exigindo dela algo que nunca poderia oferecer
⎼ Calem-se. ⎼ Rasdra projeta sua voz com uma severidade que surpreende até a si mesma. O caos se desfaz ainda mais rapidamente do que havia se instaurado: independente do que ardia sob a pele de todos ali reunidos, não fora capaz de sobrepujar o respeito que a líder inspirava. ⎼ Compreendo a aflição, a dor e a sede de sangue que, neste momento, os impulsiona. A perda foi e é de todos nós. ⎼ Os olhos amendoados de Rasdra observam atentamente a multidão até pousar nas feições coléricas daquele de quem partiu o primeiro grito. Nido. Não mais do que um jovem insolente e impetuoso, desta vez com razões suficientes para seu rancor. ⎼ Eles não voltarão. E nós não atacaremos.
Burburinhos invadem o silêncio forçado que se fez a partir do pronunciamento de Rasdra: era óbvio e aparente que aquilo que foi dito estava muito longe do que esperavam ouvir de sua líder naquele momento. Do murmúrio, porém, ressoa uma voz ainda mais enraivecida do que antes, que cala a todos com sua tola ousadia.
⎼ COVARDE. ⎼ Nido abre caminho com brutalidade entre seus semelhantes até estar perante Rasdra, encarando-a com tamanha intensidade que não há espaço para temer a superioridade, não apenas em experiência como também hierárquica, que marca a posição daquela. ⎼ Desde quando o povo anão permite que seu orgulho seja ferido de forma tão brutal por humanos? Vivemos como ratos, presos nesta caverna fétida e pequena demais para comportar a todos, com medo de sair à luz do dia para buscar nossa sobrevivência. NOSSA MERA SOBREVIVÊNCIA. Que tipo de líder é você, que não se compadece dos irmãos que foram perdidos e nunca poderão ser enterrados de forma digna? Talvez você não devesse ocupar esse lugar, afinal, se vai esperar pacientemente que NOS ELIMINEM UM POR UM.
O rosto do jovem anão toma uma tonalidade perigosamente avermelhada, sua barba proeminente umedecida pela saliva que escapa de sua boca enquanto as palavras são atiradas em direção à Rasdra, que fecha os olhos fingindo não perceber que os dele estavam cheios de lágrimas. O povo prende a respiração: a líder já havia sido confrontada e até mesmo desafiada antes ⎼ mas nunca de forma tão desrespeitosa e insolente. Rasdra ouve, pacientemente, cada palavra proferida pelo jovem até que ele se cale. A guerreira abre seus olhos e os volta a Nido, que sustenta a expressão impertinente em sua face.
⎼ Aqueles que estiveram comigo quando os tempos eram outros sabem bem que eu jamais seria hipócrita ao ponto de julgar as competências de alguém baseado em um critério baixo como o tempo de vida. Eu mesma, Rasdra, me tornei líder de nosso povo em uma tenra idade. Você sabe o por quê, Nido? Conhece as histórias? ⎼ ela questiona, em um tom de voz sereno que em nada combinava com a tensão do ambiente.
Nido apenas encara enquanto Rasdra desce lentamente cada um dos degraus que os separam, carregando consigo um martelo tão grande quanto ela própria, sem dar qualquer resposta.
⎼ Fui uma das poucas que sobreviveu ao cúmulo da ganância humana, regada à intolerância e impiedade. Houve uma época em que não nos escondíamos à maneira de ratos, como você bem pontuou. Éramos, no mínimo, respeitados por nossas compleições brutas e dispostas a trabalho duro, embora um tanto quanto subestimados no que diz respeito à inteligência. ⎼ Rasdra estampa um saudoso e breve sorriso em seu rosto negro antes de voltar sua atenção ao jovem à sua frente, um tanto mais baixo do que ela como todos os anões das gerações que se seguiram ao colapso. ⎼ Você, que só conhece isto que te rodeia, sabe muito pouco do que já fomos e do que jamais voltaremos a ser, Nido.
⎼ Sua decisão implica em um luto desonroso daqueles que tentaram nos libertar. ⎼ Nido rosna entredentes, sem encara-la nos olhos.
⎼ Seus irmãos não são heróis, são tolos que não aprendem com os erros do passado. Já tentamos ser bravos antes. E morremos. É este o preço da coragem tola, Nido.
Histórias de tempo remotos podem ser como machados de dois gumes: por um lado, apaziguam a nostalgia daqueles que vivem em uma época melhor do que esta, por outro, incutem nos jovens um desejo irrefletido de lutar por aquilo que entendem como um direito. Ainda com a aparência composta que lhe era característica, embora incapaz de calar os tormentos de sua alma com a mesma eficiência com que contera a rebeldia da multidão, Rasdra dá as costas a seu filho, o último deles, sabendo que em breve também ele partiria para nunca mais retornar.
Ufa! Ainda estão por aí? Este texto foi escrito para o projeto Na Ponta da Caneta, idealidado pelo Who's Thanny, com base em um dos prompts do ano passado: o que torna uma mulher forte? O que vocês acharam da Rasdra? Minha ideia era fugir dos estereótipos: ela não precisa gritar nem ser violenta para ser respeitada e, mesmo em posição de liderança, pode muito bem ter uma família, obrigada.
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VOA! 🙘


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