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21/02/2019

O que é RPG?

Calma! Juro que não tem nada a ver com rituais macabros feitos em cemitério ⎼ até porque, convenhamos, lápides estão longe de ser tão confortáveis quanto, por exemplo, um tapete bem felpudo. RPG é sigla de role playing game (jogo de interpretação de papéis, em tradução livre) e consiste em, basicamente, usar todo o poder de sua imaginação para criar aventuras interativas: seja em uma campanha solo ou em uma mesa com sete pessoas (o que eu desaconselho fortemente, sério). A ideia geral em torno do jogo é interpretar um personagem diante de desafios que surgem no decorrer da narrativa, agindo de acordo com sua história, sua personalidade, seus ideais e suas escolhas anteriores a fim de alcançar seus objetivos.
O que é RPG?
Imagem: gruzuk on Visual hunt / CC BY-NC-SA

Há muito tempo...

No mercado desde meados da década de 1970, o RPG de mesa surgiu com Dungeons & Dragons (Masmorras e Dragões), um suplemento criado por Gary Gygax e Dave Arneson para um jogo de peças de miniaturas chamado Chainmail ⎼ um WarGame, ou jogo de guerra, em que os jogadores controlavam exércitos inteiros. O sistema-cenário agregou, além de elaboradas regras em um contexto medieval regado a bastante fantasia, o diferencial da interpretação individual dos personagens que compõem a narrativa ⎼ propiciando, desta forma, uma maior imersão na trama, mesmo ao redor de uma mesa na sala da casa de sua avó. D&D, como é carinhosamente conhecido, fez tanto sucesso que até os dias atuais é conhecido como um clássico do RPG e aclamado mundialmente, alavancando inclusive obras das mais diversas mídias com o fenômeno do seu universo fantástico: Magic the Gathering e Neverwinter são apenas exemplos de outros jogos publicados pela Wizards of the Coast, produtora fundada pelos criadores de Dungeons & Dragons ⎼ sem contar, é claro, as inúmeras produções na literatura e no audiovisual que se inspiraram na experiência do jogo. Vale ressaltar que também em terras nacionais germina a semente do RPG: um bom exemplo disso é o sucesso da Jambô Editora, reconhecida como a maior do segmento no Brasil ⎼ sendo responsável, atualmente, pela publicação da ancestral Revista Dragão Brasil e investimento no cenário de Tormenta, o maior universo de fantasia do país.

...um grupo se reuniu...

Em termos práticos, o jogo funciona da seguinte maneira: um dos participantes tomará para si o papel do que denominamos mestre ⎼ algo como um narrador onisciente e onipotente que anunciará aos outros jogadores o cenário e contexto em que se encontram, seja por meio de descrições dos locais e situações vivenciados, seja por meio de diálogos com personagens do mestre. Do outro lado da mesa, os jogadores encarnam personagens, seja de suas obras preferidas ou criados por eles mesmos, utilizando-se de fichas de personagem: são onde se anotam informações e estatísticas relevantes para a interação com o mundo logo não devem ser perdidas em hipótese alguma. Cada personagem tem sua própria história pregressa e habilidades particulares, sendo tarefa do mestre apresentar desafios e dilemas que sirvam de motivação para que indivíduos tão distintos se reúnam em um grupo em um prol de um objetivo comum ⎼ não que isso impeça a casualidade de um dos seus companheiros esconder suas reais intenções... Embora a ideia geral do RPG seja um jogo cooperativo, é relativamente fácil que se torne competitivo devido a divergências insuperáveis entre os personagens (cinco minutinhos de porrada sem perder a amizade, hihi). Ambos, mestre e jogadores, seguem regras pré-definidas pelos manuais de cada sistema e cenário ⎼ no entanto, o próprio Livro do Mestre de D&D dá liberdade ao narrador para mudar as regras que lhe convierem (tendo, é claro, o senso crítico como juiz dessas mudanças: afinal, todos querem e devem se divertir).
O que é RPG?
Imagem: nthmetal on Visual Hunt / CC BY-NC-SA

...à mercê do destino...

O que protege os jogadores de RPG da arbitrariedade do mestre é a aleatoriedade dos dados ⎼ que, acreditem, podem ser tanto uma benção quanto a pior das maldições. Cada sistema tem suas peculiaridades no que diz respeito à utilização de dados: o Fate, por exemplo, utiliza-se apenas dos clássicos dados de seis faces; o D&D, por sua vez, faz uso de um conjunto de (pasmem) sete tipos diferentes de dados ⎼ sendo o mais famoso dentre eles o nosso querido d20, de vinte lados. É a rolagem de dados que dita o resultado dos confrontos físicos em batalha, o desenrolar dos diálogos e outras causalidades do mundo: ou seja, suas intenções podem ter sido as melhores com a ação desejada, mas o desfecho pode ser catastrófico. Nem mesmo o mestre, que planeja minuciosamente (emboras às vezes nem tanto) as possíveis consequências ocasionadas pelas ações dos jogadores, consegue prever o que vai acontecer em seguida: afinal, um crítico negativo pode mudar tudo. Todos criam a história em conjunto e é isto que torna o RPG divertido: a aleatoriedade pode gerar momentos inesquecivelmente épicos ou... bem, desastres hilários.

...e partiram em uma aventura

Não conseguiu visualizar? Eu te ajudo com um exemplo: vejamos Cahal, do conto Mão-leve. Com sua silhueta diminuta, ele parece viver às custas de furtos em uma cidade na qual se encontra periférico. A história pregressa de Cahal é misteriosa, assim como sua identidade e seus objetivos ⎼ ele de certo odeia a raça humana e o que quer que tenham feito; além de sua aparência infantil certamente levar a primeiras impressões enganosas, visto que carrega em seu olhar uma sabedoria que nos revela a improbabilidade de ser um mero humano. Sua personalidade parece banhada em rancor, o qual reflete na maneira como observa a multidão. Tudo isto compõe um primeiro elemento na criação de um personagem chamado de background: este contexto vai ditar o que Cahal pensar e como age diante das situações às quais ele se expõe. 
Cahal Mão-Leve
Situação exposta, resta agora ao jogador que controla Cahal colocar em ação as habilidades do personagem ⎼ que, considerando seu sobrenome pouco sutil, não poderia ser outra além de furtar o conteúdo dos bolsos de pessoas desavisadas. Assim sendo, o jogador teria de fazer uma rolagem da perícia prestidigitação, que se refere à capacidade de fazer movimentos discretos e precisos com as mãos ⎼ o resultado obtido no d20 ditará quão bem-sucedido Cahal foi em seu intento de superar a percepção passiva de sua vítima, ou seja, de roubar sem ser descoberto.
Tracemos então, uma situação que felizmente não ocorre no conto: e se nosso protagonista fosse pego em flagrante e tivesse de convencer as autoridades de sua inocência? Ao ser confrontado por personagens do mestre, o jogador teria de realizar uma rolagem da perícia de atuação ⎼ visto que Cahal se aproveita da baixa estatura para se passar por uma criança humana (spoiler: ele não é). Embora eu tenda a querer protegê-lo, vamos imaginar que o resultado no dado foi um miserável crítico negativo (ou seja, o número 1): nesse caso, o mestre poderia "punir" o jogador pelo seu tremendo azar fazendo com que as autoridades prendessem Cahal automaticamente sem prestarem atenção à sequer uma palavra dita por ele. Isso não seria nada bom. Da mesma forma, o resultado do dado nesta cena poderia ter sido um crítico positivo (ou seja, o número 20): as autoridades certamente comprariam doces para Cahal na barraca mais próxima e o mandariam para casa com uma advertência aos pais.
Tudo no mundo do RPG depende de decisões espontâneas e de uma interpretação fiel da personalidade de outrem ⎼ e um script mais atrapalharia do que adicionaria na diversão, afinal, são as inúmeras possibilidades que o tornam um jogo que estimula tão fortemente a criatividade e a imaginação.

Ufa! Ainda estão por aí? Já jogaram ou jogam algum RPG? O que acham da possibilidade de viver num mundo fantástico? Me digam nos comentários!
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VOA, LIBELINHA
VOA! 🙘

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