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01/03/2019

Escuridão

Imagem: VisualHunt.com
Um silêncio absoluto imperaria naquela noite, não fosse o tamborilar persistente da chuva que parecia não pretender ter um fim. Com uma sensação contida de calmaria que em nada combinava com o cenário, a esguia figura feminina observa os arredores com uma marcante indiferença ⎼ as ondas agitadas iluminadas por clarões repentinos de relâmpagos em tons bizarros de azul e púrpura em que velejavam há dias sequer pareciam uma ameaça perto do que se agigantaria perante a ela em um futuro não tão distante. A guerra caminhava para o seu derradeiro epílogo: quanto a isso, não havia a menor dúvida. O que seria dela depois de cumprir seu papel, porém, não se sabia ⎼ e era necessário estar preparada caso a morte não fosse parte do destino a ela imposto.
Com um suspiro resignado, Aerys senta-se no escorregadio convés e cerra olhos que carregam íris de um raro tom acobreado ⎼ olhos estes que definiram não apenas o seu nome, como parte de sua história. Olhos estes que não lhe seriam úteis por muito mais tempo. As pesadas gotas de chuva atingiam o seu rosto negro como uma acusação contra o pecado de semear nem que seja a menor das esperanças, uma lembrança constante de que aquele com quem estava lidando não se importava com as leis do que era natural. "Inspire", ordenou a si mesma, tentando controlar a avalanche de estímulos que a abordavam, "e expire". Controlar a sua respiração ia muito além de concentrar-se no ar que entrava e saía de seus pulmões: era também sobre o que teria permissão para ser percebido, e o que seria deixado de lado como algo sem importância. Seu coração, inspirado pelo fôlego profundo, toma um ritmo firme em sua caixa torácica ⎼ e o som retumbante invade seus sentidos, abafando os intempestivos golpes da chuva da madeira.
Cuidadosamente expandindo sua atenção, como algo tão delicado que qualquer movimento brusco poderia danificar permanentemente, Aerys tenta localizar a respiração pesada dos homens adormecidos após um dia tenso no mar revolto. Ela ouve seus corações baterem em uma sintonia disforme, como tambores que anunciam de maneira paradoxalmente silenciosa a vida disfarçada pela inércia do sono ⎼ alguns deles têm pesadelos, é fácil notar. A angústia do encontro com um algoz contra o qual não há nada que se possa fazer abalou seus espíritos, resultando em um descanso irrequieto e em murmúrios que transmitem medo e determinação na mesma medida. Nenhum deles foi capaz de abaixar completamente a guarda ⎼ afinal, não há algo como segurança desde que tudo começou.
Há outra pessoa desperta, Aerys percebe, em um dos quartos nos níveis inferiores. Embora seu coração esteja acelerado a respiração se mantêm tão controlada quanto possível, seguindo o compasso do som claudicante de madeira contra madeira ⎼ o que imediatamente denuncia sua identidade: Apo. Quebrando o exercício de concentração, Aerys se ergue acostumada com o peso extra de suas roupas molhadas e se dirige ao aposento onde o pirata acredita poder treinar sem ser observado pelos olhares alheios. Ela hesita frente à porta simples e gasta. Deveria bater e revelar que ela sabia de seu segredo? Mas, se não o fizesse, quem mais seria capaz de ajudá-la? E... confiaria ela tal fardo a outra pessoa que não ele?
Ela estende a mão diante de si e testa a resistência da porta que, destrancada, abre suavemente e permite que a luz bruxuleante do cômodo invada o corredor imundo e escuro. Apo claramente não esperava visita ⎼ de costas para a entrada e com um tecido puído cobrindo os olhos, ele brandia a cimitarra em movimentos calculados enquanto mantinha uma postura rígida. Aerys era sorrateira, mesmo quando não se esforçava para tal, e ali ficou por alguns momentos, observando aquele a quem podia chamar de amigo e refletindo se deveria realmente perturbá-lo. Em um impulso, ela pigarreou e Apo se voltou na direção da porta em um rompante, arrancando a venda de seus olhos arregalados pela adrenalina.
⎼ O que você está fazendo aqui? ⎼ ele questiona, com uma voz que revela seu constrangimento.
⎼ Quero treinar com você. ⎼ ela responde, sem tentar fingir surpresa pela situação.
Ele ri sem humor, descrente do que acaba de ouvir. Era uma situação de tal modo improvável que só lhe passava a sensação de uma brincadeira de mal-gosto. ⎼ Você não acha que talvez não seja a melhor hora para jogos de luta, acobreada?
Silenciosamente, ela entra no aposento e fecha a porta atrás de si, medindo cautelosamente suas próximas palavras. Era algo de gosto amargo e que causava uma sensação estranha de sufocamento, difíceis de serem pensadas e mais ainda de serem ditas. Um peso que ela há muito carregava só para si e que, sinceramente, não tinha certeza se deveria ser revelado.
⎼ Existe uma profecia ⎼ ela inicia, com a voz não passando de um hesitante sussurro ⎼ e, se ela for verdadeira, a única forma de derrotá-lo é unindo o poder que ele roubou com aquele que eu tomei sem querer. Imagino que seja capaz de um palpite sobre o que isso significa.
Aerys, que até então não tivera coragem de encará-lo nos olhos, levanta o olhar marejado para encarar a confusão de Apo, que subitamente se desfaz em compreensão. Ela sorri tristemente.
⎼ Meus olhos são um preço baixo a se pagar, um sacrifício razoável eu diria, mas extremamente doloroso. ⎼ ela acaricia, inconscientemente, o arco finamente talhado que carrega consigo muito mais do que histórias de batalhas vencidas. ⎼ Preciso aprender a não depender de meus olhos, caso... ⎼ sua voz abaixa até morrer na garganta, incapaz de vocalizar a possibilidade tão ínfima de que exista algo para ela após o temido confronto.
⎼ Você sobreviverá. ⎼ ele afirma, de uma forma que dá a Aerys a impressão de que não é apenas a ela que Apo tenta convencer. O meio-orc caminha em sua direção, sua perna-de-pau quebrando de forma vulgar o silêncio denso que se instaurou entre eles, e para diante da jovem elfa estendendo a faixa de tecido tão suja que sua cor se tornara indistinta. ⎼ Confie em mim.
Com mãos trêmulas, Aerys toma da mão dele a venda segurando-a insegura diante de si. Seu coração acelera enquanto seus braços mecanicamente se movem em direção ao seu rosto e um desespero irracional toma conta do seu ser quando, por escolha própria, ela se condena à escuridão. Temporariamente, desta vez.

Ufa! Ainda estão por aí? Este conto foi escrito para o projeto Na Ponta da Caneta, idealizado pelo Who's Thanny, ligeiramente atrasado: a inspiração foi o tema de maio de 2018 (!) que consistia em descrever um eu-lírico com uma "habilidade especial". Acho que essa audição da Aerys cabe, não é mesmo? Ela é personagem em uma das minhas mesas de RPG e também do meu livro ⎼ e o bacana é que essa cena de fato fez parte da história dela! Vocês também têm algum tipo de habilidade especial? Me contem nos comentários!
+ Leia também: O que é RPG?

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