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06/05/2019

O Canto das Correntes

O Canto das Correntes
Imagem: nrg_crisis on Visual hunt / CC BY-NC

O suor frio percorria impiedosamente por toda a extensão de minha pálida face. De soslaio, vi o rastro carmesim que denunciava o trajeto que acabara de percorrer. Meus ferimentos permitiam que meu sangue quente e desavisado jorrasse continuamente de encontro à neve, anteriormente branca e imaculada.
Eu sabia que meu esconderijo era temporário. Nem mesmo por um segundo tive esperanças reais de que meu algoz não soubesse de minha localização. O que me fazia continuar correndo, afinal? Se tão prontamente me convencera de que não havia escapatória, porque diabos continuava correndo?
A verdade é que o simples som das correntes me causava os mais gélidos arrepios. Me traziam lembranças inevitáveis das horas de sofrimento que aquela criatura me causara, e me faziam lembrar do que fora prometido a mim. Aqueles ferimentos não eram nada. Ainda me era permitido correr ⎼ e assim eu fiz, como se acreditasse, como um tolo que não sabe olhar ao seu redor, que existiam chances reais de sobrevivência.
Os passos de meu carrasco não se permitiam distanciar. A discrepância entre a morosidade prazerosa e a velocidade real de seu avanço fazia aquilo tudo parecer fruto da mais desvairada das mentes, certamente em seu momento menos lúcido. Eu lutava constantemente para me manter respirando. O ar absurdamente frio daquela noite parecia querer entrar em meus pulmões e congelar todo o muco neles presente. Meu algoz, por sua vez, respirava num ritmo trêmulo, como que constantemente contendo um gemido do mais puro prazer, por vezes soltando risos controlados e igualmente gozosos. Ele parecia se esforçar em se conter, como se fizesse questão de não encerrar o espetáculo cedo demais. Eu me concentrava em manter os olhos abertos e correr.
A cada passo da criatura, as correntes ressoavam mais e mais. Minha corrida vacilante não parecia me proporcionar qualquer tipo de distanciamento em relação ao terror que me perseguia. Enquanto mancava sofridamente, apertava o toco ensanguentado, prova da existência anterior de um braço esquerdo, arrancado violentamente pelos elos afiados e pontiagudos das correntes que agora me perseguiam. O sangue que vertia do toco era como migalhas de pão, que impediam que meu perseguidor perdesse meu rastro.
A respiração do monstro não mais se continha. Uma gargalhada ressoou pelos becos nevados e sombrios. Cada onda de som alcançou profundamente meus tímpanos, e meus músculos se retesaram intensamente. Por um instante, quase cessei minha corrida. Talvez fosse esta a melhor escolha.
Quando sua risada histérica ecoava impiedosa e torturante em minha cabeça, todas as janelas se abriram. Das janelas baixas das casas pobres ao meu redor, incontáveis faces infantis surgiram e me fitaram com o pior dos escárnios. Surpreendido, interrompi minha corrida por alguns instantes. Os passos no beco atrás de mim denunciaram que o monstro não pretendia fazer o mesmo.
As crianças me olhavam com avassaladora inquisição, e este que vos fala não era sequer capaz de desviar o olhar. Porque aqueles rostos juvenis me encantavam tanto? De rompante, todos começaram a cantar num uníssono diabólico. Cantavam num tom monótono que fazia minhas pernas tremerem. As palavras proferidas por aqueles infantes entravam numa torrente incontrolável por minha cabeça e eu não podia evitar gravá-las forte em minha mente “As correntes, as correntes, não há ninguém para lhe salvar”.
Me atinei de que estava estacado olhando para aquele espetáculo macabro quando minha pressão arterial baixou a níveis críticos, devido ao sangramento do ferimento que, uma vez distraído, me esquecera de estancar. Esforçando-me para ignorar as aparições bizarras nas janelas, voltei a correr. Uma centelha de esperança se acendeu quando percebi que não ouvia mais os passos. Nem as correntes.
Tudo o que eu ouvia era a canção infernal das crianças que lutava para ignorar. “As correntes, as correntes, elas vieram lhe esfolar”, elas cantavam se divertindo, como numa roda de cantigas folclóricas. Eu sabia que não haviam mais crianças naquela cidade. Pelo menos não vivas. Não depois da peste que assolara aquelas terras anos atrás.
Voltei a correr com o máximo de meu vigor. Sabia que nada daquilo deveria me proporcionar a mínima esperança, mas algo na ausência do som de correntes me fazia acreditar que além daquela curva existia um conhecido, montado em um cavalo, gritando “suba! vamos embora daqui!”. Mas não havia.
Só o que havia além da curva era mais neve, mais terreno para onde correr. E o som que voltava a retumbar junto das vozes dos infantes macabros: o tilintar das correntes sedentas por carne. Intensifiquei minha corrida. Num ato de desespero desmedido, comecei a gritar a plenos pulmões. Em algum lugar, fundo em meu coração, existia alguém que acreditava que se gritasse suficientemente alto poderia alertar algum ser humano vivo que poderia ajudar-me. Meus brados, porém, eram abafados pelo canto das crianças mortas e pelo tinido ensurdecedor das correntes. Elas tilintavam, vibravam e se arrastavam por toda parte. O som mais estrondoso que já ouvira se propagava largamente por toda parte agora. O espetáculo macabro era todo sobre elas, as correntes.
Os passos do algoz não eram mais audíveis. Talvez não existissem, talvez estivessem apenas abafados. Isso sequer era importante. As correntes estavam fazendo todo o trabalho ⎼ criando redes nos becos laterais, impedindo meu avanço e guiando minha corrida para um ponto aparentemente premeditado ⎼, e fariam todo o resto depois. O canto se intensificara, e deixava claro agora um caráter fúnebre, como que me preparando para o martírio que viria posteriormente à minha tentativa tosca de fuga.
Ao final do beco avistei para onde era guiado. Um homem de sobretudo, de braços amplamente abertos num abraço caloroso me aguardava. Uma chama intensa de esperança me inundou, e me vi correndo cambaleante em sua direção, preparado para ser acolhido para fora daqueles becos gelados e colocado em frente a uma lareira quente dentro de algum abrigo verdadeiramente protegido. Minha esperança seria verdadeira, se não fosse pela miríade de correntes que se entrelaçavam furiosamente nos membros do homem por baixo dos panos grossos e sujos de neve, pelo sorriso maníaco escondido nas sombras de seu chapéu de lona e pelas correntes agora rijas e ensanguentadas, atravessando meu corpo suspenso no ar, que perdia lentamente sua temperatura.
Ufa! Ainda estão por aí? Esse conto foi escrito num surto de inspiração causado pela mesma música que recomendei lá no início da postagem, o tema de um personagem bem macabro de League of Legends, que tem como temática principal seus ganchos e correntes, além de uma lanterna que captura a alma de suas vítimas (ooh spooky)! Gostaram desse tipo de conto? Querem ler algo mais inspirado em alguma música? Me digam nos comentários!

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