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22/12/2019

Motivos para assistir (ou não) The Witcher

Nós abominamos spoilers. Você está seguro.
É algo como uma tradição passar o final do ano com meus pais: emendo o meu aniversário, dia 15 de dezembro (pode anotar), com o Natal. São dez dias em que não fazemos nada demais, só passamos tempo juntos fazendo coisas que também faríamos se estivéssemos separados, sabe? Mas ano passado foi muito diferente ⎼ e eu ainda hoje preciso me desculpa por isso. Acontece que foi quando eu tive meu primeiro contato com o universo de The Witcher, a partir do terceiro jogo da franquia desenvolvida pela CD Projekt RED entitulado Wild Hunt. Não é o foco dessa postagem, mas vale dizer que é um jogo grande e... bom, eu tinha dez dias. Acredito que possam imaginar o que aconteceu. Hoje, porém, eu queria falar um pouco sobre a série original da Netflix baseada nos livros escritos pelo polonês de nome impronunciável Andrzej Sapkowski.

Considerados por muitos como aberrações, mas os primeiros a serem desesperadamente procurados quando algo aterrorizante acontece, os bruxos são resultado de um treinamento físico e mental excruciante. No entanto, nem todo garoto abandonado à porta de Kaer Morhen poderá brandir suas espadas ⎼ uma de prata, para monstros, uma de aço, para humanos. Só porta o medalhão da Escola do Lobo aquele que também sobreviver às mutações alquímicas realizadas por meio da mistura de ervas e magia, o teste final que os transformam em seres sem emoção feitos para lutar contra os monstros que andam sob o Continente desde a Conjunção das Esferas. A existência de Geralt de Rívia, o Lobo Branco, consiste em perambular pelo mundo aceitando contratos para matar monstros, a despeito da hostilidade que vivencia em toda cidade em que se abriga por curtos períodos de tempo.

Não se sabe se foram as mutações ou o tratamento que recebeu de todas as pessoas em sua vida (ou uma combinação intrincada dos dois) que criaram um ser amargurado com o destino e um tanto quanto rancoroso com a vida em si. Porém, querelas políticas ameaçam arruinar até mesmo a simplicidade de uma vida sem grande propósito. O reino de Nilfgaard reuniu seus exércitos e decidiu que era hora de provar para aqueles que os trataram com desprezo quão amedrontadores poderiam ser. Cintra foi o primeiro alvo da vingança nilfgaardiana e, com sua cidade natal em chamas, a princesa Cirilla é ordenada pela rainha a buscar por Geralt ⎼ pois ele era "seu destino". Tal tarefa se mostrou ainda mais complicada do que soara a princípio e, aos poucos, Ciri desbrava os caminhos para a garantia de sua própria sobrevivência. Nesse meio-tempo, Geralt luta não apenas pela sua vida, mas também contra enlaces e desenlaces do próprio destino: em uma de suas aventuras, conhece a misteriosa feiticeira Yennefer de Vengerberg cujas intenções nem sempre são as mais confiáveis.
Talvez esse não tão breve resumo do enredo já tenha captado sua atenção e te convencido a assistir The Witcher (ou talvez tenha tido o efeito contrário de te fazer querer fechar essa aba do navegador imediatamente). Peço que tenha só um pouquinho mais de paciência, porque acho que pode valer a pena saber alguns prós e contras da série antes de se exaltar:

Assistir...

1. O núcleo da primeira temporada de The Witcher (que, em uma jogada de confiança da Netflix, foi renovada para a segunda temporada ⎼ já em processo de produção  antes mesmo da estréia no dia 20 de dezembro) tem como nós os personagens de Geralt de Rívia (Henry Cavill), Yennefer de Vengerberg (Anya Chalotra) e Cirilla (Freya Allan). Mesmo sem dispor de um currículo amplo (à exceção óbvia de Cavill, conhecido por interpretar o Super-Homem), o elenco entrega uma atuação impressionante: o monólogo de Yennefer é uma cena que me arrepiou nas duas ocasiões em que vi, tanto no #CorujãoTheWitcher quanto na maratona da série em si, e mesmo que Ciri tenha tido pouco espaço fiquei ansiosa para suas próximas aparições. Mas, sem sombra de duvida, a estrelinha vai para o nosso bruxeiro que estava simplesmente impecável ⎼ me pergunto se o interesse prévio do ator pelo universo de The Witcher contribuiu para que as cenas dele sejam, de longe, as mais envolventes da primeira temporada (juro que não é porque ele é/está estupidamento bonito).

2. Embora não tenham sido tão frequentes quanto eu pensei que seriam a princípio, as cenas de ação são intensas de forma tal que é só quando terminam que você percebe que esteve segurando o fôlego por todo o tempo. Fiquei um pouco receosa quanto às lutas quando vi uma cena exclusiva no #CorujãoTheWitcher que achei, bem, um pouco mal-feita. E ela existe, está na série, mas não é suficiente pra ofuscar o brilho de outros combates ⎼ especialmente aqueles protagonizados por Geralt cujo ator, pasmem, decidiu por não utilizar de dublês e treinou muito para aprender a lutar pra valer com as espadas.

Um adendo: Henry Cavill nasceu para interpretar nosso bruxeiro preferido

3. A primeira temporada de The Witcher tem uma característica que para alguns (como o meu pai, por exemplo) se torna um ponto fraco mas que, para mim, entrou como aspecto positivo. Me refiro ao formato discursivo, cheio de diálogos abertos e monólogos sobre as temáticas centrais que guiam a narrativa, a saber: o conceito de maldade, a influência exercida pelo destino na vida das pessoas e a importância da família, seja aquela do sangue ou a de alma. É interessante perceber como o contato com essas discussões exercem efeito nas atitudes dos personagens com o passar dos episódios.

4. A estratégia narrativa é uma faca de dois gumes: os arcos narrativos de cada personagem se dão em linhas temporais diferentes que convergem para um ponto em comum. Essa foi uma escolha interessante quando se leva em consideração que os oito episódios que compõem a primeira temporada foram fielmente baseados em O Último Desejo (1993) e O Sangue dos Elfos (1994) ⎼ ambos os livros são coletâneas de contos que, embora passem no mesmo universo e tenham personagens em comum, não têm necessariamente um conexão entre si: são tramas independentes. O objetivo de Lauren Hissrich, produtora do original Netflix, foi construir uma linha do tempo em que estas estórias se costurassem em uma só. Ponto a favor foi que essa abordagem permitiu uma apresentação singular dos protagonistas e do plano de fundo de cada um deles, de forma a criar empatia e expectativa quanto ao futuro de Geralt, Yennefer e Ciri nas próximas temporadas, além de ser curioso acompanhar como os eventos culminaram na situação que é desvendada logo no primeiro episódio.

... ou não assistir?

5. Não posso deixar de citar o outro lado da moeda (ou da lâmina, já que eu comecei a metáfora falando de espadas). Apesar dos citados fatores positivos dessa estratégia, ficou ainda um gosto amargo da confusão inicial quanto à diferenciação das linhas temporais. Depois de um tempo, ficou relativamente claro para mim que as origens de Yennefer antecediam a jornada de Geralt que acontecia antes de Cirilla sequer ser concebida ⎼ mesmo assim, em alguns momentos eu questionei se era esse de fato o raciocínio ou se eu estava perdendo algum elemento. Acredito que isso possa se tornar um problema para espectadores desavisados, visto que especialmente no que tange o arco de Yennefer e Geralt, os indicadores são um tanto quanto sutis. Esse problema poderia ser facilmente solucionado com, por exemplo, uma indicação simples em texto do local e, quem sabe, ano em que o evento se dá.

6. Outro ponto que me incomodou um pouco ao longo dos episódios foi a sensação de uma narrativa fragmentada, obviamente derivados do fato de que o material original eram contos. Em algumas ocasiões, meses se passavam entre um evento e outro mas o modo brusco como era feita a transição não dava qualquer sensação de passagem do tempo: nada mudava, mas tentavam me fazer acreditar que sim ⎼ e, bom, isso eu não consegui comprar. Esse fator prejudica, inclusive, a progressão dos personagens que comentei anteriormente. Pessoalmente, acredito que a decisão por apresentar Yennefer a partir de suas origens foi algo que muito contribuiu para essa narrativa um tanto truncada: por um lado, percebo que essa foi a maneira encontrada de tornar a personagem mais cativante aos olhos do espectador como protagonista (porque convenhamos que Yen pode ser um tanto quanto detestável), mas também molda ela de uma forma em que será difícil retratar a feiticeira que irreprimível sem sentir certa empatia por ela no fundo, mesmo com seus meios escusos de atingir objetivos.
Ciri olhando pro Geralt com a melhor expressão de "amada?!"

7. Ao decidir pela fidelidade à obra original, The Witcher conquista os fãs de longa data sem perder a oportunidade de atrair novo público para o seu universo ⎼ ou, pelo menos, era essa a proposta. Acontece que, no resultado final, a primeira temporada acaba sendo pouco acessível para quem não possui qualquer contextualização prévia do universo, seja de suas criaturas ou das disputas políticas em jogo. Ainda não tive oportunidade de ler os livros (algo que vai mudar, em breve), mas foi por ter jogado The Witcher 3: Wild Hunt que consegui me localizar em muitas situações que eram apresentadas sem uma explicação satisfatória.

Eis a questão

Antes da estréia, alguns críticos compararam o original Netflix com a estrondosa Game of Thrones ⎼ essa assertiva, que já gerava dúvidas, se provou muito pretensiosa. Para aqueles que já conhecem o universo criado por Andrzej Sapkowski a experiência da série será muto gratificante: é uma mistura em doses ideais de fidelidade à obra original e consistência com a franquia de jogos responsável pela sua popularização. Para aqueles que ainda têm dúvidas quanto a se aventurar... The Witcher certamente vale as cerca de oito horas despendidas, mas ainda tem um longo caminho pela frente se deseja se tornar um fenômeno mundial como o foi a produção da HBO. 


Ufa! Ainda estão por aí? Vocês já maratonaram a série? Se não, o que diabos estão esperando? Se sim, o que acharam? Me contem nos comentários!
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