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02/02/2020

O Diário de Nisha | Veera Hiranandani

Nós abominamos spoilers. Você está seguro.
Só é possível saber aonde se quer chegar quando se sabe de onde parte. Só é possível saber onde está, quando se sabe quem é. Ser metade muçulmana e metade hindu nunca pareceu para Nisha como uma grande questão existencial, nunca foi sobre fazer uma escolha ⎼ até porque não havia qualquer a ser feita, Nisha só poderia ser quem era e ponto... certo? Então porque alguns adultos decidiram que ela não pode ser feita de metades e que o melhor a fazer era ignorar que parte de si sequer existia?
Uma curta vida tendo dificuldade com as palavras parece tempo demais para uma garota que tem tanto a dizer. Nisha nunca se sentiu confortável em verbalizar seus anseios e Kazi, o cozinheiro da família, sabe disso como ninguém: é por isso que, no décimo segundo aniversário de Nisha e de seu irmão gêmeo Amil, Kazi presenteia a garota em segredo com um lindo diário. Faz isso não apenas como um incentivo para que ela se expresse, mas por acreditar que Nisha é a pessoa certa para registrar o que ele teme que está para acontecer como consequência das tensões políticas que podem estourar a qualquer momento. Nas páginas macias do diário, Nisha permite que seu espírito observador e questionador componha cartas para sua mãe: a princípio, apenas como uma forma de se comunicar e de se deixar conhecer pela mulher que faleceu ao dar a vida a ela e seu irmão. Detalhes da vida cotidiana são compartilhadas e pequenas mudanças na rotina são apontadas com curiosidade ⎼ seu pai, sempre tão rígido, deixou de repreendê-los por não ir à escola; sua avó e Kazi passaram a recolher os mantimentos da despensa como se a casa sequer fosse habitada; outras crianças passam a usar o termo "hindu" como algo ofensivo e imoral.

❝Falar é assustador porque, quando as palavras são ditas, não podemos pegá-las de volta. Mas se você escreve as palavras e elas não ficam do jeito que você as quer, é possível apagá-las e começar de novo.❞

Em conversas sussurradas entre os adultos, Nisha descobre que a Índia agora se tornara independente da Inglaterra, o que provavelmente era algo bom, mas que a Índia agora se chamava Paquistão e não poderia mais ser o seu lar. Nada parece fazer muito sentido, considerando que há pouco tempo muçulmanos, hindus e sikhs viviam de forma relativamente pacífica juntos. O que ela não conseguia entender era porquê isso significava que ela, Amil, seu pai e a avó teriam que sair da casa onde sempre moraram. Afinal, sua mãe era muçulmana e seu pai era médico em um hospital que atendia muitos muçulmanos e Kazi, que é parte da família, também é muçulmano. Eles deveriam ter o direito de ficar, principalmente porque boa parte de seus parentes também vivem em Mirpur Khas ⎼ então por quê, Nisha se questiona, sua família está juntando seus pertences na calada da noite e saindo fugidos do que antes era seu lar? Por que terão de embarcar em uma travessia árduas de milhares de quilômetros, deixando parte de quem ela é para trás?

Um pouco de história

O ano é 1947. Exatamente à meia-noite entre os dias 14 e 15 de agosto, Lorde Mountbatten declarou a independência da Índia, após numerosas revoltas reprimidas brutalmente. O motivo: após a Segunda Guerra Mundial, ocorrida entre 1939 e 1945, a Inglaterra não mais dispunha dos recursos necessários para manter o controle sobre a maior colônia britânica. Embora a saída dos colonizadores tenha acontecido de forma voluntária (entre muita aspas), o país foi deixado em um cenário de acentuada tensão religiosa entre hindus e muçulmanos que resultou na partilha do território em dois Estados independentes: Índia e Paquistão (Oeste e Leste, que posteriormente se tornou Bangladesh mas isso não vem ao caso agora).

❝Uma coisa é entender fatos, outra é entender por que esses fatos são fatos.❞

Com a Partição da Índia, uma massa entre 10 e 15 milhões atravessou os milhares de quilômetros entre as fronteiras, nos dois sentidos ⎼ muçulmanos em direção ao novo Paquistão e hindus rumo à Índia. As migrações forçadas foram sangrentas: estima-se que aproximadamente um milhão de refugiados foram mortos, assassinados na estrada ou pelas condições precárias da viagem, e dezenas de mulheres foram estupradas: se uma família se via em apuros, suas mulheres eram mortas pelos próprios pais e irmãos para evitar que fossem capturadas. Tanto muçulmanos quanto hindus e sikhs fizeram parte da carnificina, como vítimas e agressores, incitados pela cólera, pela perda de territórios e pelos rumores.

Literalizando...

Nos tempos atuais, o mundo vive a maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial: até meados de 2019 já eram aproximadamente 65,6 milhões de pessoas afetadas por guerras como a da Síria, conflitos internos, perseguições políticas e violações de direitos humanos. Neste cenário, o drama de imigrantes e refugiados que tiver de abandonar seus lares ressoa na produção cultural: muitos livros com a temática foram publicados nos últimos anos, como maneira de sensibilizar os leitores por meio de suas narrativas. A costura entre realidade e ficção em O Diário de Nisha, cujo enredo é inspirado (embora não fidedigno) à memória história da família de Veera Hiranandani, é um incentivo para lidar com a atual crise humanitária tendo em mente o que a história já tentou nos ensinar durante a Partição da Índia. É por meio da perspectiva de uma criança, com seus questionamentos sinceros sobre o modo como o mundo funciona, que o leitor vai se deparar com reflexões profundas acerca da empatia, do afeto e da solidariedade, em um contexto em que o desprezo total pelas diferenças tem o potencial de suplantar qualquer aprendizado que delas poderia advir.

❝Eu não devia estar dizendo essas coisas. Mas precisava, por precaução. Nunca dissemos essas coisas uma para a outra. Mas isso não me entristecia, porque fazíamos coisas que traduziam o amor.❞

A narrativa de O Diário de Nisha segue o formato de um romance epistolar, por meio de entradas no diário que são como cartas direcionadas à sua falecida mãe ⎼ é com a figura materna que Nisha vai tentar desembaraçar seus pensamentos acerca de sua ancestralidade e sua identidade como fruto de um romance "proibido" entre duas religiões conflitantes. Como justificar para uma criança a existência de uma guerra? Como explicar para Nisha, que nutre um amor incondicional por Kazi, que há um desentendimento de tal proporção entre muçulmanos e hindus que eles não podem mais ficar juntos? Como os muçulmanos podem ser um perigo, se é cozinhando com Kazi quando ela se sente mais confortável em ser quem é? São perguntas que não têm uma resposta, porque nada disso faz realmente sentido: desconsideram a humanidade além dos embates. A violência da situação vivenciada pela família da garota é tão marcante que chegou a um ponto em que já não era o que mais impactava ⎼ o que realmente me fez chorar foram detalhes: foi perceber o esforço de Nisha de ser forte em seu silêncio e a importância agregada à partilha de uma refeição simples que, em outro contexto, não teria sido mais do que cotidiana. Quando Nisha passava um dia sequer sem escrever em seu diário, eu era dominada pelo mais puro medo de que não fosse ela a colocar palavras nas páginas da próxima vez.
O Diário de Nisha discute sobre a intolerância religiosa e os traumas gerados por decisões governamentais que não levam em consideração a vida e a existência dos indivíduos sob seu poder. Também suscita reflexões acerca das diferenças pessoas no modo como um sujeito se desenvolve, deixando claro que existem diferentes formas de viver e sutilezas mil quando se trata de demonstrar o amor. É um livro tocante e de leitura fluida, com uma narrativa que cativa e emociona. Mesmo que em formato que costumeiramente não me agrada (o dos romances epistolares) e com um acontecimento no final um tanto quanto solto da trama geral, é uma leitura que recomendo por acreditar que vai muito além do que dizem as palavras.

❝Eu fico em silêncio. Nenhuma palavra minha poderia mudar alguma coisa.❞

Aleatoriedades

  • As fontes utilizadas para compôr a contextualização história foram as seguintes: em relação à Partição da Índia, G1, Nexo Jornal e Estadão; em relação à Crise dos Refugiados, Politize!.
  • O chá é da BiO², que se tornou minha marca preferida de chá pelo cuidado que tiveram ao garantir a sustentabilidade do produto: com exceção de um plástico que mantem a caixa lacrada, todo o resto é produzido com papel ⎼ dos sachês até a própria embalagem em sim. Ah, o que aparece nas fotos é chá verde e hibisco! E juro que isso não é publicidade, inclusive quem me dera.
  • Não teve espaço na resenha (até porque, né, convenhamos, guerreiro é quem chegar até aqui), mas preciso dizer que essa é a edição mais linda que eu tenho da DarkSide! A editora é bem conhecida por caprichar nos seus projetos gráficos, mas acho que eles se superaram em O Diário de Nisha.
  • Devido ao fato da culinária ser realmente um ponto relevante da narrativa, muitos pratos indianos típicos foram citados. A edição conta ainda com algo como um glossário para as expressões indianas e lá também são citados os componentes de cada receita... Adivinha quem quer arriscar colocar a casa em chamas tentando reproduzir os comes tradicionais da terra da nossa garota Nisha? Eu mesma, Gislaine Mello!

Título: O Diário de Nisha | Autor: Veera Hiranandani | Editora: Darkside Books | Ano: 2019 | Páginas: 283



Ufa! Ainda estão por aí? Vocês já leram "O Diário de Nisha"? Se sim, o que acharam do livro? Se não, têm interesse em ler? Me contem nos comentários!
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VOA! 🙘


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