Destaques

Newsletter

16/02/2020

Wardruna: sabedoria ancestral

As palavras parecem estar fugindo de mim – o que, devo dizer, é um tanto notável considerando que escrever sempre foi uma das maneiras mais fáceis para que eu expressasse meus sentimentos. Acho que isso só torna mais memorável esse momento que eu tento descrever, mas aparentemente não consigo. Vocês já passaram por uma experiência em que se sentiram tão conectados com o universo que, por mais efêmero que tenha sido aquela brecha na realidade, acreditaram que a magia fosse possível? Aconteceu comigo. Em um ônibus de viagem, com as costas doendo depois de algumas horas sentada na mesma posição, enquanto lia uma obra de alta fantasia e escutava Wardruna nos meus fones de ouvido. Interrompi a leitura no meio de um parágrafo, olhei pela janela e o que vi foi uma vastidão verde banhada pelos últimos raios de sol. Em um piscar de olhos, tinha acabado – mas aquela sensação, ela persiste até hoje. 
Wardruna é uma banda de folk nórdico
Desde o princípio, Wardruna esteve na minha vida de uma forma um tanto quanto mística. Conheci a banda por mera coincidência, quando me deparei com uma performance inesperada e estonteante da AURORA (minha artista preferida) com uma banda de ares viking em uma caverna (ainda me pergunto o que tem na água da Noruega para gerar pessoas tão talentosas). O interesse pela mitologia nórdica já existia e me incentivou a ouvir alguns álbuns no Spotify: foi aí que teve início meu duradouro fascínio por música folk. Cabe dizer que se alguma música te soar familiar, talvez não seja apenas uma falsa impressão: além de algumas faixas de Wardruna comporem a trilha sonora de Vikings, seriado de sucesso estrondoso, Einar Selvik também foi convidado a cantar na frente das câmeras em alguns episódios. Embora o reconhecimento de certa forma global tenha sido um tanto quanto tardio e particularmente proveniente desta colaboração em Vikings, a obra de Einar Selvik já exercia grande influência em terras escandinavas.

+ Leia também: AURORA: a beleza de ser
Mas é aquilo que dizem por aí: quem vê close não vê corre. O norueguês era ainda um adolescente quando se interessou pelo estudo das runas do Futhark antigo, sistema alfabético de escrita constituído por 24 símbolos usado desde o século II até o século IX, sucessivamente substituído pelo Futhark recente. Einar Selvik diz que sua aproximação das runas antigas e dos poemas ancestrais é muito mais do que algo que ele queria fazer: havia um senso de urgência e de necessidade na transformação daquele conhecimento de suas raízes em algo como Wardruna. Ele acredita, e eu me sinto inclinada a concordar, que o passado não deve ser esquecido: não no sentido de retornar aos antigos modos, mas de costurar na realidade presente o que havia de mais importante em tempos imemoriais. O poder da voz e do mundo ao redor, de acordo com Selvik, eram elementos importantes da magia nórdica ancestral – não era sobre feitiços inacreditáveis, mas sobre o encantamento intrínseco dos símbolos, das palavras, dos rituais, dos sons e da natureza por si só em conexão com o ser e fazer humanos. O produto desses estudos foi uma trilogia, nomeada como Runaljod, composta pelos álbuns gap var Ginnunga (2009), Yggdrasil (2013) e Ragnarok (2016) – cada um exerce sua função de envolver o ouvinte nos fragmentos do eterno ciclo do tempo: semear e brotar, crescer, fenecer para renovar.

Quando ouvi as músicas de Warduna pela primeira vez, me senti transportada para outro plano de existência – não de uma forma que me distanciava da realidade, mas que realçava os fluxos de energia do meu corpo na cidade: já dizia Einar Selvik que se inspirar pela natureza também implica perceber os efeitos de sua ausência. Quando descobri o conceito por trás dos álbuns, minha atenção foi definitivamente cativada – me agradam as coisas que são mais do que parecem à princípio. No entanto, só percebi a genialidade do que eu estava ouvindo quando pesquisei mais a fundo sobre o processo de criação e produção de cada faixa. Há todo um esforço para criar a ambientação correta para a mensagem que se quer transmitir pelas músicas: muitas vezes, isso significou gravar em florestas, cavernas ou perto de riachos para que os sons da natureza se unissem com o poder de suas vozes. Não acaba aí: os instrumentos da banda, impressionantes por serem feitos com couro, peles e chifres, são todos feitos artesanalmente baseados em antigas ilustrações e indícios de como seriam aqueles instrumentos em um passado remoto. São esses detalhes, aquilo que por anos foi construído sem uma base firme onde se apoiar, que reflete o ideal de que Wardruna vai além de entretenimento: é uma experiência ancestral, que nos lembra que é preciso fortalecer raízes para que a árvore cresça frondosa.
Instrumentos artesanais
Ufa! Ainda estão por aí? Consegui convencer vocês a darem uma chance para Wardruna? Me contem nos comentários o que acharam da banda!
Não deixem de seguir o Literalize-se nas redes sociais para mais conteúdo: Instagram | Facebook | Twitter
Fontes: 1 2 3

VOA, LIBELINHA
VOA! 🙘


Comentários via Facebook

@literalize.se

© Literalize-se – Tema desenvolvido com por Iunique - Temas.in